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Cristina Ataíde — Espaço Intermédio
Na exposição Espaço Intermédio, Cristina Ataíde exibe uma série de desenhos de grande dimensão e um grupo de esculturas de pavimento que ocupam cantos diferentes da sala. Trabalhando uma ideia de presença que se apoia na complementaridade do vazio com a densidade da matéria, a artista dá continuação a uma pesquisa que se debruça sobre o modo como entidades opostas convergem, dando lugar a uma terceira via ou à possibilidade de um caminho intermédio.
Os desenhos formam-se por camadas em que a tinta (pigmento e guache) preenche o papel, o carvão risca a superfície pintada e, numa última etapa, a imagem surge apagada pelo uso de várias borrachas.
Entre as linhas escuras e o seu esbatimento, percebe-se um gesto circular, repetido que delineia a figura de um aparente orifício, abertura ou vazio. A invocação desse vazio que, ao centro, reclama um negativo de natureza primordial, contraria a intensidade da cor que, ao fundo, detém uma afirmação enérgica. Assim, se a inscrição marca uma profundidade que nos puxa, a base assume uma vibração que extravasa o suporte, vindo ao encontro do observador.
Explorando a relação entre o que se marca e o que se dilui, entre a decisão e a consequência, os desenhos oscilam entre a percepção de cada elemento e a leitura do conjunto, operando uma pendularidade que é pictórica, mas também objectual. Algo que, a vários níveis, desponta entre o que se retrai e anuncia, na parede, ao nível do olhar.
Aproveitando o corte de três árvores (cedros) que existiam na proximidade do atelier da artista, as esculturas adoptam as secções dos troncos e desenvolvem-se com base num movimento elíptico. Esse movimento, que ecoa o gesto dos desenhos, vai talhando o volume e lixando a sua superfície, convertendo os elementos em peças de forma oval.
No interior de cada peça, todas as partes ocupadas por organismos que consumiram a madeira estão ocas, revelando um conjunto de orifícios que dão forma a um vazio central. Trata-se de uma lógica de sulcos que não foram desenhados pela artista, mas sim pela vontade do tempo, ditando o descarte de algo que já não pertencia à arvore.
A superfície é progressivamente lixada, salientando o desenho dos veios, dos anéis de crescimento e das particularidades do seu desenvolvimento (o registo dos troncos que se dividiram, dos ramos que desembocaram do tronco, dos cortes que afetaram a estrutura interna, e outros). Dir-se-ia que no miolo e na superfície, em cada recorte interno e em cada elemento que à face vem, estas peças actuam como mapas que cartografam o crescimento da espécie, mas também o seu perecimento interior.
As obras dispõem-se no pavimento e de forma análoga ao funcionamento dos desenhos, a atenção gravita entre o fundo e a superfície, guiada agora pelo vazio e pela matéria que o circunda. Assim, se nos desenhos o olhar vagueia nas paredes e na profundidade encenada no papel, nas esculturas o olhar afunda-se no pavimento e na densidade dos objectos apresentados.
No conjunto, tudo se desenvolve gradualmente, num campo de estratos, onde a acção da artista e a vontade da matéria dialogam em torno da existência e da sua obliteração. Algo que indaga a consolidação e a ausência, poetizando o lugar de um espaço intermédio.
Sérgio Fazenda Rodrigues
creditos © pedro tropa
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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