SQUARE
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Ding Musa — Ponto de Fuga, Linha de Fuga, Falta de Perspectiva – Modos de Usar – Todo Olhar é Político
Em colaboração com Projeto Fidalga /Residência Paulo Reis Residência de Criação Artística
Perspectivas Dissolvidas: A Arte de Construir o Incompleto
A Appleton Square apresenta “Ponto de Fuga, Linha de Fuga. Falta de Perspectiva – Modos de Usar – Todo o Olhar é Político”, uma exposição individual do artista brasileiro Ding Musa. Conhecido por uma prática artística de abordagem interdisciplinar onde várias ideias se encontram, Musa desafia, com esta exposição, a maneira como percebemos o mundo à nossa volta. Os trabalhos aqui apresentados, que vão desde impressões em toalhas de cozinha e t-shirts até fotografia e vídeo, utilizam a ideia de grelhas e paisagens para instigar uma investigação crítica sobre a forma como vemos, o que vemos, e as estruturas invisíveis que nos governam.
Nesta exposição, Musa investiga a construção da percepção, usando o conceito de ponto de fuga como um dos motivos centrais. Os seus trabalhos confrontam-nos com as estruturas ocultas que ditam o modo como vemos objetos e espaços, e, ao fazê-lo, incitam o visitante a refletir sobre a natureza ideológica dessas perspectivas. A grade ou grelha, omnipresente, não é apenas uma ferramenta compositiva – é também política – um dispositivo estético que tanto pode libertar como restringir o olhar.
O conceito de ponto de fuga está profundamente enraizado na história da arte e da arquitetura, sendo tradicionalmente usado como ferramenta para criar a ilusão de profundidade e perspetiva. No entanto, Musa, tendo como referência Gilles Deleuze, critica esse dispositivo como meio de controlo ideológico. Para Musa, o ponto de fuga não é apenas uma ferramenta técnica, mas também uma forma de limitar a nossa perceção, aprisionando-nos dentro de um ponto de vista hegemónico e singular. Nesse sentido, o ponto de fuga funciona como símbolo das estruturas sociais que condicionam a forma como vemos e entendemos o mundo.
Deleuze, na sua crítica à perspetiva, sugere que o ponto de fuga, ao oferecer um centro fixo para a visão, tende a aprisionar o olhar dentro de um campo limitado, de onde outras possibilidades são excluídas. Essa centralização visual impõe uma visão do mundo que acaba por refletir estruturas de poder e controlo, podendo ser vista como um “regime” que organiza e restringe a experiência estética e política. O olhar de Musa dialoga diretamente com essa visão, questionando a uniformidade imposta pelos sistemas de perspetiva que controlam não apenas a visualidade, mas também os modos de pensar.
Pensando na arte como experiência, e nos trabalhos desta exposição em particular, refletimos sobre como a perceção não é um ato puramente intelectual ou isolado, mas sim uma experiência do corpo. O nosso envolvimento com o mundo é sempre intercedido pelo corpo, e não podemos perceber sem também sermos parte ativa do que observamos.
Isto vai ao encontro do incentivo de Ding Musa para que questionemos as estruturas dominantes que moldam esta perceção e para que busquemos maneiras alternativas, mais dinâmicas, de ver. Será possível encontrar liberdade dentro destes padrões estabelecidos, ou estaremos sempre limitados por eles? Musa não nos oferece respostas claras. Em vez disso, convida-nos a entrar neste espaço de incerteza e dúvida.
Outro tema central neste trabalho é a grade, que aparece várias vezes na exposição e carrega esta analogia de organização do espaço, proporcionando uma sensação de estrutura e ordem. No entanto, como sugere o trabalho, a grade pode também ser vista como um dispositivo que limita a liberdade e impõe limites rígidos sobre o modo como entendemos o mundo. As formas geométricas não são estruturas objetivas que existem independentemente da perceção humana. Pelo contrário, são moldadas pela nossa experiência corporal do mundo. Para o artista, o espaço não é uma entidade fixa, mas algo que está constantemente a ser reimaginado e reinterpretado pelo sujeito que o experiencia. As grades de Musa não impõem uma perspetiva singular e fixa; em vez disso, abrem múltiplas possibilidades para compreender o espaço e as relações, incentivando a ver a grade como estrutura que pode ser dissolvida e transformada.
Nalgumas das suas obras, Musa imprime grades em materiais do quotidiano, como toalhas de cozinha, t-shirts ou papel fotográfico, esbatendo a fronteira entre a arte e a vida. Esses objetos, geralmente associados ao espaço doméstico, tornam-se locais de investigação artística e filosófica. A grade, tradicionalmente vista como um dispositivo estético formal, é recontextualizada como parte do tecido da vida quotidiana. Ao fazê-lo, Musa questiona como as estruturas que organizam nossa existência diária – sejam elas físicas ou ideológicas – são construídas e mantidas.
Subjacente ao trabalho de Musa está uma profunda preocupação com o conceito de construção – tanto literal quanto conceptual. Quais são as unidades que compõem o mundo? Como são elas construídas, divididas e montadas? Que forças ocultas tornam essas unidades possíveis? Estas questões são centrais para a exploração das unidades de construção que Musa vê como os blocos de construção tanto da perceção quanto da realidade.
O trabalho que aqui vemos não nos pede simplesmente para ver; pede-nos para participar, pede que nos tornemos cocriadores nesta dança entre presença e ausência, entre o que é dado e o que é ocultado. Em cada ponto de fuga existe um traço de infinito, uma ressalva de que as perspetivas se podem dissolver, reaparecer e transformar em algo novo. As linhas tornam-se caminhos, e os espaços abrem-se para o desconhecido. Ao penetrarmos neste reino de incertezas, somos convidados não apenas a perceber, mas a sonhar, a encontrar na falta de perspetiva o potencial para uma visão ilimitada, para a beleza que existe no inacabado.
Luiza Teixeira de Freitas
creditos © ding musa
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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