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Fábio Colaço — One Million
Hail Money!?
[1] No meio da sala encontra-se uma massa informe. Uma aproximação à mesma revela tratar-se de pequenas tiras de papel. Um olhar redobrado começa a reconhecer símbolos fragmentados impressos nelas e a reconstruir mentalmente a sua totalidade.
Habemus Pecunia!
[2] A destruição do papel-moeda não foi encetada pelo próprio artista, que apenas se apropriou do remanescente de uma acção recorrente do Banco de Portugal, à semelhança dos seus congêneres estrangeiros. Quando o papel-moeda deixa de apresentar as condições físicas adequadas ao seu uso, procede-se à sua delapidação. O desperdício daqui resultante tem essencialmente duas finalidades: a queima em centrais de cogeração, prática pró-ambiental que possibilita simultaneamente a produção de electricidade; e a sua venda na loja do Museu do Dinheiro. A segunda prática revela parcelarmente o modo de funcionamento do sistema capitalista, no qual o dinheiro é submetido a uma auto-regeneração contínua, num processo que apenas visa a gestação de mais dinheiro. Um parasita [Rosa Luxemburgo; Zygmunt Bauman] que se alimenta de novos sistemas para se poder reproduzir.
Ao apropriar-se destes destroços, afigura-se momentaneamente que o artista promove a dessacralização do papel-moeda. Momentaneamente porque o próprio tem consciência de o mesmo ser absurdo. O culto que se presta na contemporaneidade ao papel-moeda não é pela sua existência concreta, mas pela conversão abstracta em valor contabilístico que origina. As tiras de papel não são mais do que matéria fecal que possibilita manter intactas as insígnias oficiais que legitimam o papel-moeda. Sempre que gastas apagam-se os espécimes degenerados e produzem-se novos. O capital neste aspecto assemelha-se a uma fénix que se labuta nos seus próprios excrementos.
Hail Money!
[3] O título da obra, One Million, manifesta a quantia monetária que a massa de papel representou outrora: um milhão de euros. A escolha deste montante não é arbitrária, ela é a tradução corrente que demarca a passagem do seu detentor a milionário, estatuto que domina os desejos de uma larga fatia populacional. O imaginário popular está constantemente a ser sitiado por representações de poder e prestígio social que a sua posse aufere, prenúncio de uma forma-sujeito que usa como métrica identitária o saldo contabilístico de que cada um dispõe.
Money, money, money Must be funny In the rich man’s world
[4] No centro o dinheiro na forma de papel-moeda, expresso como corpo pleno social [Gilles Deleuze e Félix Guattari], que se expande para o exterior apenas para se reproduzir. Tudo o que o circunda deve concorrer para esse fim. O mundo comprimido numa forma indistinta e homogénea que se traduz somente na capitalização monetária, subordinado às mercadorias e ao trabalho abstracto. Na sua órbita circulam sujeitos em perfeita servidão voluntária [Etienne de la Boétie], em estados psíquicos que se estendem desde édipos infantilizados [Gilles Deleuze e Félix Guattari] a narcisos depressivos [Anselm Jappe]. Uma simbiose na qual “a pessoa tornou-se realmente «privada», na medida em que deriva das quantidades abstractas e se torna concreta no devir-concreto destas mesmas quantidades. Já não são as pessoas que são marcadas, mas estas quantidades: ou o teu capital ou a tua força de trabalho – o resto não tem importância nenhuma porque havemos de te apanhar nos limites alargados do sistema, ainda que seja preciso fazer um axioma especial para ti” [ Gilles Deleuze e Féliz Guattari, O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia 1. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, pp. 261262].
Hail Money?
[5] Contudo, a obra não infere-se crítica do capitalismo. Á semelhança de trabalhos anteriores, o artista realça traços deste sistema através da modificação das suas estruturas, alterando-lhes as escalas de valor e reconhecimento. O que se torna mais evidente com estas acções é que tanto o papel-moeda, nesta caso, como a moeda na obra Golden Cent (2017), são na sua origem objectos aos quais foram outorgados uma função específica codificada, podendo ser caracterizados superficialmente enquanto significantes neutros, aos quais foi instituído um valor que pode ser modificado sempre que necessário. A inflexão crítica é projectada por quem se confronta com estes trabalhos, seja através do louvor ou da injúria, da exclamação ou da interrogação. Who Wants to Be a Millionaire?
Pedro Gonçalves
I.
One Million
2020 Notas de euro trituradas Dimensões variáveis
créditos © bruno lopes
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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