GARAGEM
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Aieres : Nightfalls at Ponto d’Orvalho — Notes on Resounding Memories
Curators: Joana Horta and Mattia Tosti
Nightfalls at Ponto d’Orvalho – Notes on Resounding Memories de Aires é uma instalação sonora em que se poderá experienciar uma peça musical inédita num contexto de escuta imersiva e somática na Appleton Square. Esta obra foi composta a partir de diferentes gravações captadas durante a estadia do artista no festival Ponto d’Orvalho. Por ocasião da inauguração nos dias 9 e 16 de Julho, a instalação acolherá uma atuação de Aires na qual irá propor uma versão da peça ao vivo.
No mês de Setembro de 2021, Aires foi desafiado para participar no festival não só como espectador, mas como artista para pensar este contexto e ambiente rural como um lugar para explorar ideias, como se se tratasse de uma residência artística. Com esta intenção, o artista trouxe ao Ponto d’Orvalho um gravador para poder registrar diferentes sons, e um caderno onde anotar memórias e narrativas sugeridas pela paisagem sonora do festival. Desta forma, Aires armazenou horas e horas de gravações de campo, samples e trechos de performances de outros artistas; assim como conversas entre participantes, crianças a brincar, pássaros a bater asas e outros sons cuja proveniência original já é difícil identificar.
De volta ao seu estúdio em Lisboa, Aires começa a ouvir atentamente cada uma das gravações e a selecionar os excertos dos materiais sonoros que iram ser trabalhados, alterados e organizados para criar uma peça sonora que condensasse a sua experiência emocional e auditiva.
Apesar de todas as ligações e possibilidades de convivência que foram surgindo durante o fim-de- semana do festival, a distância da cidade suscitou em Aires uma reflexão centrada na passagem do tempo, na repetição, e num tipo específico de solidão que pode surgir fora do ambiente urbano. Este sentimento de isolamento trouxe-o inevitavelmente de volta aos seus anos de infância, passados num campo que descreveu como sendo simultaneamente “idílico e sinistro”, um espaço que afectou a sua percepção e virou o seu olhar para dentro. Esta peça funde estes elementos autobiográficos com referências cinematográficas que espelham as impressões contrastantes do artista.
Ao criar esta peça, Aires focou-se principalmente em duas obras de James Benning, um dos primeiros cineastas americanos que desde os anos 70 se tem empenhado na investigação das relações entre os seres humanos, o tempo e o ambiente. O seu primeiro trabalho – que inspirou o nome da peça é Nightfalls (2012), um filme de 98 minutos em que Benning usou uma câmera fixa para filmar o pôr- do-sol numa floresta perto da sua casa na Sierra Nevada. Este estudo da luz que desaparece na paisagem evoca uma relação com a natureza contemplativa que entra em contraste com a possibilidade de transcendência solitária de Two Cabins (2010), a segunda obra que inspira a peça de Aires. Neste segundo filme, Benning reconstrói as duas cabanas onde Ted Kaczynski e Henry David Thoreau se isolaram voluntariamente e filmou, também num plano fixo, a vista das janelas. Nesta obra, Benning reúne a experiência de reclusão de duas figuras americanas bastante distantes, a de um eco-terrorista que se opôs à industrialização, e a de um filósofo que em Walden (1854) nos convida, bem antes de John Cage, a parar e prestar atenção aos sons e ao “silêncio” da natureza.
O resultado final da união destas referências com a metodologia composicional de caráter minimalista de Aires é uma peça linear que se desenvolve em três momentos. Cada um deles é caracterizado por uma palette de sons e de samples dominantes. Embora nestes momentos sejam reconhecíveis vislumbres de gravações das atuações ao vivo, durante grande parte da peça, ouvimos diferentes texturas misteriosas, que criam uma paisagem sonora nebulosa e fantasmagórica composta a partir das memórias coletivas que foram captadas das geografias do festival, para depois serem manipuladas com a intenção de nos fazer entrar em contacto com um território interior. Em Nightfalls at Ponto d’Orvalho – Notes on Resounding Memories, Aires orquestra um improvável encontro entre diferentes temporalidades circunscritas num espaço, linguagens musicais e universos sónicos distantes, criando uma composição que nos convida a pensar no infinito campo de possibilidades sonoras do mundo e nas suas intermináveis combinações.
~ Joana Horta e Mattia Tosti
Créditos e Agradecimentos do Artista:
António Poppe David Maranha Inês Tartaruga Água Manuel Mota Norberto Lobo Sérgio Hydalgo Stav Yeini Vera Appleton Xavier Paes
Appleton – Associação Cultural Montado do Freixo do Meio Público do Ponto d’Orvalho
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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