Joanna Villaverde — Animals Nightmare
Sobre o afecto e a doença
Animal’s Nightmare é, antes de tudo o resto, uma viagem. Deslocando-se entre lugares, paisagens, palavras e imagens, esta viagem é guiada por uma geografia ética e afectiva que se insurge como alternativa à geografia política e ideológica que desumaniza o mundo. Esta exposição-viagem inicia-se num território onde confluem pertenças, crenças e imaginações – as de Joana Villaverde – que obrigam ao reconhecimento do olhar enquanto direito, mas também, e principalmente, dever humano universal. Por isso, do Alentejo, onde a artista reside, olha-se a Palestina e vê-se para além da coincidência paisagística, vê-se a necessidade de mostrar o invisível e descolonizar o olhar. É precisamente isso que Joana Villaverde fez em Animal’s Nightmare, em Avis, onde apresentou pela primeira vez a exposição, e faz agora na Appleton Square, em Lisboa.
O quotidiano palestiniano, depois da construção do muro de West Bank, é uma realidade intermitente e fragmentada no campo do visível, oscilando entre representações espectacularizadas e uma total obliteração discursiva. A história deste muro revela-se, aliás, em diferentes narrações, a história do próprio muro e a história da oposição ao muro; a segunda é tão antiga quanto a primeira. A genealogia arquitectónica do muro, as suas motivações e justificações políticas foram dissolvidas por uma discussão mais ampla que convoca – com toda a pertinência – os direitos humanos e o direito a ser humano. O sofrimento causado pela barreira – povoações isoladas, terrenos confiscados, deslocações morosas ou mesmo impossíveis – ocupa, contudo, um lugar opaco na imaginação do mundo.
O título da exposição, Animal’s Nightmare, recupera um dos capítulos do livro da escritora palestiniana Suad Amiry, Nothing to Lose but Your Life (2010), que resiste a esta opacidade e narra o quotidiano de um trabalhador obrigado a deslocar-se clandestinamente para atravessar o muro. No capítulo homónimo da exposição, um grupo de animais implora a Al Gore por justiça. É esta fábula da desumanização do sofrimento que Joana Villaverde dá a ver ao espectador através de um nexo de objectos artísticos que concorrem, individualmente e no seu conjunto, para uma ética visual. Por isso, a gazela pintada pela artista não é destituída da sua beleza, sendo, contudo, privada da sua ontologia – a do ser em liberdade. O corpo fragmentado da gazela, animal culturalmente simbólico na Palestina, assume-se como referência de uma realidade velada e alterada por instâncias discursivas de poder naquele contexto geopolítico. A artista deslocou-se por distintas vezes à Palestina, reunindo as ferramentas para a criação de um novo léxico visual que permitisse a mobilidade imagética de um território invisível para quem nunca o visitou. O estético, participa assim no sensível e permite estabelecer as condições daquilo que é (ou deveria ser) comum – direitos humanos universais – , aniquilando consistências políticas e ideológicas que continuam a formar barreiras ao olhar. Num momento em que a arte funciona como crítica da própria imagem, do modo como as imagens circulam ou como se ausentam do sistema (híper)visível contemporâneo, Joana Villaverde cria fendas no muro, mostra-o para o destruir.
Desta forma, o muro, que constitui uma forma icónica de divisão e separação, assim como, uma estrutura concreta de ocultação de realidade humana, viaja também, mostrando-se, numa tentativa de impedir que a normalização se transforme em normalidade. Esta ideia de viagem (ou de múltiplas viagens) e de mobilidade é reforçada pela presença de um carro, uma escultura-instalação, no espaço de exposição. Este carro não é, no entanto, artifício visual gratuito, mas resulta de encontros coincidentes da artista nas suas viagens: um carro abandonado em, Avis, no espaço destinado à exposição, um carro idêntico visto em Belém. É dentro dele que as pás desenhadas minuciosamente pela artista, com pequenas figuras inspiradas por Goya, mas também em pessoas que Joana Villaverde conheceu ao longo das suas viagens – afectos construídos – surgem amontoadas como escombros. O objecto artístico é, como a vida humana na Palestina, privado de condições de dignidade. Até o vídeo que revela uma pequena figura se oculta na arquitectura da Appleton Square. Omnipresente na exposição é som vindo do carro, canções da Palestina gravadas pela artista no jantar entre amigos, vozes invisíveis que agudizam a impossibilidade de ver a realidade.
por todo o aparato de exibição que contém, perturba o olhar do espectador, pois nem a multiplicidade de superfícies e suportes visuais (desenho, pintura, escultura-instalação, vídeo) conseguem abalar os dispositivos de invisibilidade que permeiam a exposição. São estes dispositivos que permitem uma acção crítica do olhar e ousam mostrar que o invisível é uma instância visual que pode e deve ser vista. Não sendo um exercício expositivo sobre a guerra, é uma exposição guerreira: conquista, devolve, anexa territórios às possibilidades do olhar perante as dificuldades em ver. Animal’s Nightmare é uma viagem sobre a afecção – o afecto e a doença – no mundo.
Animal’s Nightmare
Ana Cristina Cachola Janeiro de 2016
créditos © photodocumenta
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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