João Paulo Feliciano — Color Games
Durante grande parte da última década, João Paulo Feliciano (n. Caldas da Rainha, 1963) tem-se interessado na reabilitação da cor e na exploração de um certo lado lúdico na sua obra. Para Feliciano, a cor é um poderoso veículo de sensações e emoções, as quais são simultâneamente universais e muito pessoais.
Constituída por duas séries (intituladas “Tape Paintings” e “A Momentary Lapse in Colour”, respectivamente), esta exposição ilustra bem o interesse do artista em compreender como é que certas combinações cromáticas podem ser quase viscerais, capazes de assaltar o olhar, enquanto outras podem proporcionar ao espectador agradáveis padrões de rima e ritmo.
Na série genericamente intitulada “Tape Paintings”, Feliciano vai buscar a tela – um espaço privilegiado para a imagem e depositária da expressão manual do artista –, utilizando-a como suporte para faixas de fita-adesiva colorida, as quais o artista estende na superfície plana e obediente da tela em branco. Com este gesto, o artista opta por ignorar as relações de contraste (figura/fundo) que dominam a representação pictórica e a noção de expressão artística que a tela em si encerra. Estas alternadas e repetidas faixas horizontais de cor justaposta proporcionam uma superfície instável e volúvel que se abre para o informe, o indefinido, um campo de abstracção cromática em expansão. Nesta série, mais do que subordinar a cor à figura, mais do que encerrar a cor, Feliciano parece estar sobretudo interessado no potencial óptico da cor, nas perturbações criadas pela cor e na instabilidade a ela inerente, algo que não é apenas determinado pela nossa fisionomia (um único amino-ácido na nossa constituição genética determina a forma como apreendemos a cor) mas também pela luz, ou seja, pela forma como os objectos e os materiais absorvem e reflectem a luz.
Retrospectivamente falando, no seu trabalho com a cor e a luz, Feliciano presta especial atenção ao processo, trabalhando a forma como são geradas as diferentes combinações de cor. Em alguns casos, o artista recorre a processos baseados no tempo, nos quais a cor (luz) é programada (recorrendo para tal a hardware e software específicos) por forma a explorar os padrões e ritmos que se desenvolvem. Tal é o caso de trabalhos como “Glow Wow”, de 2004, ou “White Cube/Colour Cube” (*), 1999-2007.
Na segunda série em exposição, intitulada “A Momentary Lapse in Colour”, Feliciano adopta esta atitude de processamento de modo a converter uma composição cromática de base temporal numa composição espacial. As 15 x 15 amostras de cor, perfeitamente organizadas e apresentadas em cada impressão digital, são imagens de vídeo (vídeo-stills) da escultura de luz “White Cube/Colour Cube”. Captadas em vídeo, as imagens foram digitalizadas para computador e, recorrendo ao formato filmstrip, convertidas numa grelha sequencial de amostras de cor. Tal como nas suas “Tape Paintings”, Feliciano evoca aqui a multiplicidade perceptiva – a percepção da cor naquilo que tem de variável, instável e diferente de observador para observador –, testando de forma compulsiva as relações e intensidades cromáticas, bem como a sua capacidade de estimular e revigorar o espectador.
O público norte-americano tem também a oportunidade de ver “The Blues Quartet”, uma instalação composta por dois trabalhos multimédia e dois trabalhos gráficos, patente no Lois & Richard Rosenthal Centre for Contemporary Arts de Cincinnati. Uma nova versão de “White Cube / Colour Cube” encontra-se também em exposição permanente no novo Museu Berardo / Centro Cultural de Belém, em Lisboa.ND
(*) “White Cube/Colour Cube” foi originalmente desenvolvido em colaboração com o músico Rafael Toral
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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