Julião Sarmento — L.A. Prints

As edições numeradas são uma tipologia que atravessa toda a produção de Julião Sarmento. No espaço Appleton Square, na próxima terça-feira, 01 de Abril, pelas 22 horas, o artista apresenta duas das suas mais recentes séries onde o processo reprodutivo mecânico é intencionalmente explorado por forma a fugir (e no caso de alguns trabalhos expostos, fingir) a manualidade, e a abraçar um ambiente de trabalho colaborativo.

Na primeira série exposta, de título Seven Houses & Six Flats, 2006, Sarmento dá-nos a conhecer treze gravuras executadas em Santa Mónica, Califórnia, com a colaboração de Jacob Samuel. Cada gravura apresenta uma imagem a preto e branco, ou de uma moradia, ou de um apartamento, com uma pequena planta de um piso apenas, e um texto sumário,  digamos que uma ficha técnica, com a respectiva morada. Ao olharmos para as gravuras no seu todo, a série apresenta-se como um arquivo, porém, a facticidade e transparência dos acontecimentos que justificam a sua agregação num “volume” são suprimidos. Resta-nos, como espectadores, olhar para os seus elementos não como factos, mas sim fragmentos, pistas. Ou seja, cabe-nos não um trabalho de reconstrução, que radica sobre uma ideia de perseguição da verdade, mas sim de imaginação e incerteza. Pressentimos a presença humana por detrás destes muros, do brilho destas janelas, até porque nalgumas imagens, os carros estacionados indiciam a presença humana. Porém, não há nada que justifique a estranheza, o arrepio que estas imagens nos provocam, nada a não ser o seu ângulo, a tomada de vista, distante, escondida nalguns casos, e quase vigilante (e para quem consegue descobrir, acresce mais uma dúvida ainda: que faz a casa do artista no meio desta selecção?).

Quanto às restantes quatro gravuras, realizadas nos Estados Unidos em 2007 (em Los Angeles, mais precisamente) uma ideia de suspensão e impossibilidade atravessa as obras seleccionadas, a suspensão e impossibilidade da comunicação – nem toda a escrita, nem toda a fala é produtiva. Esta dificuldade de obtenção de um sentido unívoco obriga-nos a tentar, a errar, a tactear. Aliás, o tacto é um elemento, um sentido privilegiado nestas obras, pois a técnica – patenteada com o nome de mixografia – é um processo que dota a folha com um aspecto tridimensional. No caso das obras de Sarmento, o relevo dos fundos, das figuras e do texto, o aspecto aveludado – a pele – da folha apelam ao tacto, a um outro entendimento, a uma outra leitura, a uma sedução.

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /