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Maria José Palla — Arquivo

Melancolia A melancolia na arte é uma ficção. Malevitch não estava de luto quando pintou quadros pretos. Nos séculos XV e XVI a melancolia foi uma moda, um criador intelectual tinha de ser um melancólico. A auto representação sempre afligiu as pessoas, evocam loucura, narcisismo ou doença mental. Mas é simplesmente um modo de representação. É um género como uma paisagem ou uma cena bíblica. Há uma clivagem entre o autor e a vida. Talvez eu faça autorretratos por ter respeito pelo retrato dos outros (que também fiz). Representam uma experiência pessoal, que executo completamente só depois de um tempo de preparação mental. Na abordagem que executo com a máquina Polaroid não enceno o corpo, não calculo a pose, nem a maquilhagem, nem a distância. Não existe efeito de provocação. A imagem de um rosto é sempre forte. Sempre desejei fotografar rostos. Assim do rosto dos outros passei ao meu próprio rosto. Estava à mão. Não necessitava de modelo: eu sou o meu objecto de representação, eu sou o meu próprio modelo, o meu rosto está colado a mim. O autorretrato representa uma metamorfose, é uma híper imagem. Eu não desejo transformar-me noutro. Mas o outro inunda a película, alaga a superfície da chapa. Torno-me um objecto duplo, uma imagem do que já foi. Assim, quando me vejo, estou reduzida à categoria de natureza morta. Anatomia de um rosto Esta série de autorretratos foi tirada numa máquina Photovision nos metros de Paris com a inscrição do nome da estação, data, ano, mês, dia e hora (1996-2005). Fiz uns 400 autorretratos em 8 anos para tornar evidente o meu envelhecimento. Comecei por desejar fotografar, mas, como não tinha máquina comigo, realizei o meu autorretrato na estação de metro mais próxima da minha casa de Montrouge, a estação Porte d’Orléans, numa máquina Photovision. A máquina parisiense soava: Bienvenu dans la cabine de Photovision. Veuillez introduire la somme exacte. Appuyez sur la flèche correspondante à votre choix. Si vous voulez des mini-portraits supplémentaires appuyez sur la flèche du haut. Si non, appuyez sur le bouton vert. Si la pose vous plaît, appuyez sur le bouton vert. Sinon, sur la flèche du haut. Vos photos seront prêtes dans trois minutes à lextérieur de la cabine. Três minutos depois tinha o meu rosto impresso no papel. Passei a repetir sempre que podia a minha imagem na mesma máquina. A pouco e pouco, comecei a procurar outras estações de metro com a mesma Photovision. Mas a fotografia que a máquina vomitava não coincidia com a imagem que eu tinha de mim. Todos os dias voltava ao «local do crime». Todos os dias o mesmo sentimento. Pensei realizar este trabalho durante um longo tempo. Como se estudasse a anatomia do meu rosto. A complexa relação entre imagem e realidade levava-me cada dia a perguntar onde estava o original (eu) e a imagem. Ao fazer o meu autorretrato na máquina Photovision, não me exibo como com a Polaroid ou outras máquinas. Sento-me frente ao espelho, sempre à mesma altura, sem pretender ficar melhor ou pior. Como se fosse uma fotografia para bilhete de identidade. Ou para arquivo da polícia. Assim posso escolher a minha imagem no espelho, e, ao fazê-lo, não olho para o meu rosto, mas para os botões que vão contribuir à feitura da imagem. A luz, o enquadramento, e a distância não são realizados por mim, mas produzidos mecanicamente, de igual forma para todos os fotografados no «meu» local do crime. Como se o anónimo se viesse insinuar entre mim e mim. O conjunto destas imagens tem um valor descritivo, narrativo, de memória e de tempo. Constitui um longo plano sequência realizado durante 8 anos, em diversas Photovision, na mesma cidade. Exercícios de Estilo  Do suporte das fotos a preto e branco passei à minha face coberta de plásticos coloridos. Neste trabalho interessam-me os jogos de luzes, de reflexos, de transparências, o rosto escondido, meio escondido, o rosto visível. De uma foto preto e branco ganham ou perdem espaço com uma folha de plástico colorida. Estas fotos foram executadas na minha casa em Montrouge. Elas são atravessadas pelo amor de fazer «efeitos especiais» com poucos meios. Em todas eu sou o meu objecto de representação, ao mesmo tempo produto e produtora, num círculo fechado. Agrada-me o retrato, agrada-me marcar uma identidade na película, no papel, na parede. O retrato, lugar de verdades e mentiras, é uma paragem sobre ao corpo, sobre o espaço e o tempo, que se prolongam e permanecem na magia da fotografia. O rosto a desaparecer  A série a preto e branco lembra uma sequência cinematográfica executada em poucos minutos. Nela tento fazer desaparecer o meu rosto, apagá-lo, deixá-lo derramar, elidir, derreter. Perder a paisagem da face. Agarrar e escolher momentos imperceptíveis, destacar farrapos, fragmentos que perdem o seu sentido à medida que se afastam do todo. Ou melhor, ganham outro sentido tonando-se abstractos. Assim do suporte da foto passei à minha face coberta de plásticos coloridos. Neste trabalho interessam-me os jogos de luzes, de reflexos, de transparências, o rosto escondido, meio escondido, o rosto visível. Estas fotos foram executadas na minha casa em Montrouge. Elas são atravessadas pelo amor de fazer «efeitos especiais» com poucos meios. Em todas eu sou o meu objecto de representação, ao mesmo tempo produto e produtora, num círculo fechado. Textos de Maria José Palla – Março 2022
creditos © bruno lopes

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