Mariana Viegas — ILHA

Como Guardar um Segredo

eu deslumbro-me quando o tempo se suspende
e me permite parar e contemplar o espaço sem tempo.
Maria Gabriela Llansol

O poeta metafísico inglês John Donne tornou-se conhecido por um pequeno excerto de um dos seus textos que foi vastamente popularizado: “nenhum homem é uma ilha. Todo o homem é uma parte de um continente, uma fracção do todo”.  “Ilha” é precisamente o título do mais recente projecto de Mariana Viegas (Lisboa, 1969), a sua primeira exposição individual na Galeria Appleton Square.

Se a afirmação de Donne é incontestável, existem situações, nas quais o homem/mulher se sente metaforicamente numa ilha. Este sentimento, cimentado pela a vivência numa língua estrangeira (no sentido grego do termo Xenos, aquele que não pertence), foi experimentado pela artista durante a sua estadia em Berlim, e que propulsionou a série que agora é exibida.

Uma cidade estranha, uma língua estranha, criou um sentimento de isolamento que levou Mariana Viegas a produzir um conjunto de obras de cariz mais introspectivo, onde paisagem surge como despoletador de uma narrativa diarística. Se podem ser olhadas como imagens de uma cidade (de parques numa cidade) elas são antes de tudo meditações íntimas transformadas, pelos textos, em pequenas ficções.

O artista australiano Ian Burn afirmava que a paisagem não era algo para o qual se olhava, mas antes algo que servia de mecanismo para olhar mais além. Uma espécie de lente que transforma o olhar. A mesma atitude estética (e também ética) se pressente na metodologia de aproximação a uma paisagem de Mariana Viegas. Cada imagem, marcada por uma desarmante simplicidade, não é considerada um fim em si, mas antes um ponto de entrada – ou chegada – numa nova realidade (seja esta pré-existente ou ficcionada).

As fotografias constituem-se como portas accionadas tanto pelo olhar do espectador, como pelo texto que a artista vincula a cada obra. Se este tem a faculdade de ‘desviar’ o olhar da paisagem em si em direcção à história relatada, tem igualmente a capacidade de criar uma nova imagem, um outro tempo.

Neste sentido, as obras que apresenta podem parecer, a uma primeira vista, desconexas. Não há nada que aparentemente as una, a não ser o pano de fundo de uma paisagem que surge, quase sempre, distante e em suspenso. Une-as também esse sentimento de que possivelmente seriam folhas de um diário, reforçado pelas frases que se assumem como uma espécie de legenda da obra.

Se, como define Foucault em “Heteropias”, o lugar é definido pelas relações de proximidade e distancia entre pontos e elementos, em Mariana Viegas, esse lugar, essa ilha, (essa sua Berlim?) é marcada pela justaposição entre todos estes lugares e todas estas histórias e pelos segredos que aí se inscrevem. FO

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /