Miguel Ribeiro — Fotografia

Para Miguel Ribeiro (Lisboa, 1952) o corpo é um elemento de trabalho. Enquanto médico, este é visto como uma entidade abstracta, desconectada da sua subjectividade. É objectificado. É também esquartejado no sentido em que há uma ampliação de determinada zona (a possivelmente afectada pela doença) preterindo o todo. Este ‘defeito’ profissional é transposto para a sua conceptualização da fotografia, ou melhor do objecto da fotografia.

Desde 1978 que fotografa o corpo. Inicialmente o corpo de outros, um corpo doente, enfermo, convertido extraordinário e estranho por anomalias raras. Estas poderosas fotografias levaram-no a uma exploração do corpo na dimensão de inquietude. O abandono da fotografia dita médica é feito a favor de outra aproximação totalmente distinta. O outro passa a ser o próprio. Miguel Ribeiro transforma-se em sujeito e objecto do seu olhar.

As fotografias focam partes isoladas do corpo, mostrando-as ampliadas e deste modo abstractizando-as. O familiar é convertido em estranheza. O corpo em escultura. O preto e branco despe as imagens de subjectividade, despe-as de individualidade e de identidade. O corpo é feito abstracto, truncado, como num exame médico, mas aqui sob o efeito da estética. O corpo é transformado numa operação estética e poética.

John Coplans, um famoso fotógrafo que emprega o seu próprio corpo envelhecido como sujeito das suas imagens, afirmava que “a mão transforma-se num texto capaz de muitas e complexas interpretações, um agente de evocação e um instrumento maleável de performance com um sempre expansível nível de significados.” A mão é também para Miguel Ribeiro um elemento central e estruturante. Ela permite reconsiderar o corpo humano como um corpo irreal. Através das suas imagens, o espectador é confrontado com algo profundamente familiar, apresentado de forma absolutamente inédita, obrigando-o a considerar o corpo para além do corpo. Quando usada como sequência ou montagem, o efeito de estranheza adensa-se.

No seu modo de fotografar e de olhar, o corpo emerge como algo irreal, como uma escultura viva (filiando assim o seu trabalho na tradição da body art). As suas fotografias e vídeos, impregnadas de dinamismo e vigor, violência e passividade, são coreografias congeladas num momento de suspensão. Filipa Oliveira

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /