SQUARE

Nuno Sousa Vieira — Sem pisar o chão

Curadoria: Carolina Trigueiros

Poderíamos dizer que a prática de Nuno Sousa Vieira se insere num ágil e agitado território, entre a construção e a erosão, o que se fixa e o que se dispersa: é o gesto que transporta o vestígio de uma acção anterior e, simultaneamente, a possibilidade de um novo estado. As suas obras procuram a recusa da existência inerte de um instante igualmente estático e afirmam a possibilidade do registo de um trajecto contínuo, de deslocações sucessivas que vão acumulando camadas de significado, desgaste e patine, por via da acção do tempo, do corpo, do espaço, dos contingentes e até aleatórios eventos que coabitam a sua esfera inicial. É precisamente nessa intersecção de memória e matéria, que se forma um percurso incessante, sempre em laborioso trânsito, e se afectam existências escultóricas intencionalmente em vias de mutação, abertas à transfiguração, poética, física, necessariamente versátil.

Sem pisar o chão, a segunda exposição individual do artista na Appleton, é mais uma paragem neste encadeamento fluido de uma série de causas-efeito, e assume o revistar conceptual de temáticas mas também, e acima de tudo, o reencontrar de um lugar de configurações arquitectónicas familiares, não fosse afinal a sua primeira exposição na Appleton de 2012, Wall Stop for This, de marcadas preocupações com o espaço expositivo. Nessa altura, ao integrar o espaço directamente na lógica da prática escultórica, por via da duplicação de entradas, ou ao erguer novas paredes, o artista pensou numa ocupação espacial enquanto obra. Uma década depois, encontramos num mesmo léxico a evidente relação com o estar e o habitar de um lugar enquanto catalisador, aliado a uma inabalável necessidade de inventários, arquivos, de classificar, quem sabe, a possível vertigem da vivência de um universo artístico. Nesta exposição o percurso no tempo é matéria-prima e escala, por isso, tanto mais intimista quanto vital a sua enumeração.

Desta forma, no trabalho de Nuno Sousa Vieira, arquivar e desarquivar são acções indissociáveis: a memória não é um registo unilateral, mas vinculativo, feito de matéria plástica. Os elementos que habitam o espaço, fragmentos de chão, janelas ou ranhuras, estruturas deslocadas, não são apresentados como vestígios encerrados num passado findo, mas como signos reactiváveis, sujeitos a novas inscrições. O (re)arquivar, (des)arquivar, como consequência, não se trata de um gesto neutro, implica interferir. Quem sabe, dobrar o tempo sobre si mesmo numa coreografia sincronizada de resíduos industriais e vislumbres afectivos. É nessa articulação que a obra “Desviar-se do ‘bom caminho’” se apresenta como um registo meticuloso do tempo vivido, transformado em tábuas numeradas que acumulam a contagem dos dias e das semanas do artista, entre o nascimento e o presente da exposição. A cada nova exposição, a peça é reposta, actualizada, numa espécie de inscrição contínua da passagem do tempo sobre o próprio chão. Mais que um mapeamento pessoal do tempo ou uma rede de cadências, o acto aqui repetido à exaustão é também um processo de organização e preservação; um mecanismo de reescrita contínua. O chão o palimpsesto, o lugar de transição entre a permanência e o extravio.

Por sua vez, a instalação “Ilha vaga” prolonga esse território de incerteza, incorporando materiais heterogéneos e tanto manipulados como encontrados – madeira, vidro, bronze, suportes de laboratório, numa composição que se evidencia na fragilidade da suspensão, na hesitação entre forma e matéria. Há aqui um eco do gesto de nomear como fixação, mas também como deslocamento: a ilha, por definição, sugere um limite geográfico, um território isolado, ou poderá transformar-se numa plataforma aberta, um espaço de mutação, de possibilidades flutuantes. A máquina de fumo integrada na instalação inicialmente reforça esse pressuposto, adensando a atmosfera com camadas de visibilidade e ocultação, de presença e desaparecimento.

Também “Visão embaçada” é uma dessas séries paradigmáticas; na exposição Wall Stop for This, Nuno Sousa Vieira apresentava a primeira versão destas peças que agregam vidros partidos, estilhaços do atelier, e os reconfigura numa alternância de transparências e opacidades. Uma arqueologia intimista que acumula gestos, rastos e reverberações, tendo o atelier como espaço de origem, que informa cores, formas, mas também a necessidade de dar continuidade a essa mesma investigação. O atelier está vincado nas fundações do pensamento, e do seu consequente necessário registo. A relação entre matéria e memória, central na obra do artista, prolonga-se ainda na escultura “Sem pisar o chão”, que dá título à exposição. Um sapato (esquerdo) remete para um corpo ausente, quem sabe um rasto suspenso entre o equilíbrio e a queda.

As polaridades do que é o visível e o seu contrário, o estável e o transitório, o etéreo, atravessam toda a exposição. Tal como na exposição de 2012, há em Sem pisar o chão uma coreografia implícita, um convite à deriva e ao reconhecimento de que cada fragmento contém em si múltiplas vivências latentes. O artista encena um lugar de acção e dúvida. É preciso ir ao cerne para lembrar o que demais é vulnerável. Quantos dias restam. Quantos ateliers haverá por habitar. Quanta memória se pode guardar pela repetição laboral do gesto. Na geometria das composições, nos volumes de chão e parede, ou nas palavras que ocupam densidade visual e espacial, há um percurso que o título parece querer desafiar. Talvez seja precisamente nessa tentativa ficcional de evitar o chão que é pisado, o desgaste desse peso, a fatalidade desse gesto, o seu eco enquanto assombro. E procurar um outro estar tão leve, que pode desafiar as leis da gravidade. Pelo menos, quem sabe, se pisássemos o chão de forma “menos dura”, como quem diz a Terra, já não poderia mudar muita coisa*. Há que tentar.

Carolina Trigueiros, Março, 2025

creditos © pedro tropa

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