Pedro Diniz Reis — Grids

Na vídeo instalação – Alphabet (Portuguese) – patente numa das paredes da nave obscurecida da galeria, podemos assistir a um vídeo que se desenvolve em 3 partes. Num primeiro momento, apresentam-se “os dados” – as vinte e seis letras do alfabeto português – soletradas individualmente, e de forma cristalina, na voz inconfundível do locutor de rádio António Sérgio. Nesta primeira sequência ficamos a conhecer a grelha do sistema: a primeira letra do alfabeto, a letra ‘A’, figura no canto superior esquerdo; a letra ‘Z’ na última posição, ou seja, no canto inferior direito. Feita esta apresentação, o trabalho progride para um segundo momento, o das “conjugações simples”. É durante este capítulo que nos apercebemos do modo de funcionamento deste sistema. Aqui, a primeira letra, a letra ‘A’, conjuga-se com as restantes letras do alfabeto: AA, AB, AC, AD, AE… segundo um lógica linear, simples e previsível. A terceira e última sequência deste trabalho, denominada “circuito sequencial”, é aquela onde se geram efeitos mais inesperados e surpreendentes. As letras surgem e conjugam-se de forma aparentemente aleatória, dando origem a uma “melodia” contingente, numa grelha que parece oscilar perante o olhar do espectador.

Este vídeo, tal como aquele que Pedro Diniz Reis apresenta paralelamente na vizinha MARZ – Galeria, inscreve-se num paradigma de abstraccionismo que o historiador americano Benjamin H. D. Buchloh apelida de abstraccionismo diagramático (diagrammatic abstraction). Num texto publicado recentemente sobre o conceito do diagramático na obra de Gehrard Richter, Buchloh define o abstraccionismo diagramático como aquele que adopta sistemas preexistentes de quantificação espacio-temporal ou métodos de recolha de dados. São estas abordagens sistémicas que compõem a matriz básica da composição ou organização pictórica deste tipo de abstraccionismo. Ainda segundo Buchloh, é possível identificar uma fileira de artistas (Ellsworth Kelly, Agnes Martin, Frank Stella, Piero Manzoni e Gerhard Richter) que adopta este paradigma que se define por oposição ao abstraccionismo biomórfico praticado, por exemplo, por um Jan Arp ou pelo mais reconhecido Jackson Pollock. A não-representação, no caso do abstraccionismo diagramático, define-se por oposição a práticas que registam noções de plenitude cósmica ou somática e em contraposição à promessa contida em determinados actos de libertação psíquica. Assim, o abstraccionismo diagramático figura como antítese de determinadas práticas heróicas que pretendiam registar, ou que ainda hoje pretendem inscrever, o desejo na sua produção.

Neste sentido, observamos que todas as decisões pictóricas (de execução, distribuição e composição) neste paradigma, e por consequência, neste trabalho, são sujeitas a um regime puramente quantitativo. No caso de Pedro Diniz Reis, a transposição das letras do alfabeto resulta não da vontade subjectiva do autor, mas de um processo operatório, conduzido através de um sistema criado pelo artista que esgota todas a possibilidades de conjugação das 26 letras. No caso do trabalho Alphabet (Portuguese), o resultado do “circuito sequencial” gera um enunciado aleatório fonético que se aproxima das experiências pós-duchampianas de John Cage, num ambiente, também ele, de progressivo desencantamento e destituição do homem perante o mundo. ND

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /