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Rudi Brito —Alarme
Reflexões após a visita ao atelier de Rudi Brito no dia 19.11.2025, por Mina Anguelova
Sinto-me alarmada. Algo da minha vida, um sentimento de fatalidade do destino. Ainda não tinha visto as pinturas, nem sabia o nome da exposição. No entanto, depois de observar as pinturas, percebo que aqui o acaso é essencial. Uma pinga de tinta saltou para ali, uma sombra projectou-se do outro lado, uma lasca ficou de pé, outra tombou. A mão moveu-se para criar com forte intenção e, ao mesmo tempo, de forma cega, conduzindo este fogo-de-artifício de acasos que assumem os papéis neste teatro simultaneamente intimista e épico. A coincidência é a matéria-prima nestas peças de Rudi Brito. É aquilo que a energia, a intenção e o destino encarnam.
Os quartos absorvem totalmente a carga dos seus ocupantes, e quando se entra no quarto de alguém é como se acedêssemos não só aos seus hábitos, mas à sua energia. Do mesmo modo, as pinturas são portas para quartos onde o espectador pode entrar. Habitamos assim a matéria — com a frustração do espírito, que se sente oprimido e retido naquele limite corporal, enquanto a matéria também se queixa, subjugada e possuída por espíritos parasitas. Quando entramos, vemos quadros numa sala de madeira.
À primeira vista, as pinturas mostram quartos comuns — cama, mesa, cadeiras. Mas, ao aproximarmo-nos e dando tempo ao olhar, percebemos entre linhas: as paredes do espaço revelam-se como pele sardenta, com
a cor invertida das constelações, e nas pinturas surgem personagens embutidas.
Progressivamente, instala-se a vertigem dos fractais e da infinita multiplicidade de imagens diante de
nós. Neste passeio abissal, percebemos suspeitos padrões que espreitam e se repetem numa frequência particular. Essa repetição inescapável provoca um pressentimento de cilada, fatalidade e alarme. Talvez o mundo invertido não seja apenas um conceito fictício. O mundo oculto habita estes quartos, mas permanece contido nas subtilezas do mundo comum. Já nas suas costas estão os quadros do reino invertido, onde o símbolo governa. São o verso da carta: o espaço dos sonhos, da noite contraposta ao dia,onde os ícones, deuses ou demónios se assumem e gritam segredos.
Um cálice pesado, uma hipnótica peça fria de prata. Destacam-se como duas rainhas ou dois buracos negros — tão centrais e invisíveis como elefantes na sala. Marcas e anulações de luz brilham como detritos espaciais que gravitam e se precipitam de volta destas estrelas, sobre um fundo de escuridão tão vazio quanto animado. Encon tramos, ainda assim, perante esta tempestade ancestral, um ponto de fuga — talvez o mesmo centro que há pouco tanto nos alarmava — e a partir desse “olho do furacão”, observar em silêncio a criatividade e o sincronismo deste espectáculo. Olhar para as cabeças vermehas que rolam e perceber como realçam tão perfeitamente o verde das flores e de Neptuno.
creditos © pedro tropa
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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