Rui Calçada Bastos — Cabin Fever
CABIN FEVER é uma peça de Rui Calçada Bastos que explora os limiares experimentais da viagem e enquadra uma visão peripatética. Esta peça estará patente ao público entre 23 de Abril e 23 de Maio de 2009 na Appleton Square. Esta exposição resulta de uma colaboração entre a Vera Cortês Agência de Arte e a Appleton Square.
Esta instalação combina uma selecção de 8 fotografias de grande formato com uma intervenção estrutural, em que o artista construiu um labirinto através do qual os visitantes têm de deslocar-se, para conseguirem ver as imagens de perto. Ao contrário da forma como se espera habitualmente deslocar-se através de um espaço expositivo, CABIN FEVER explora a desestabilização das nossas perspectivas ao obrigar à sensação de uma deslocação constante dos nossos eixos de navegação.
A série de fotografias da instalação representa o trabalho desenvolvido ao longo de mais de um ano, mostrando uma narrativa fragmentada e não linear das viagens do artista. Captadas em diversas viagens de avião, cada fotografia enquadra um ponto de vista restringido pelo lugar à janela atribuído a Calçada Bastos. A escolha de uma vista de trás do estranho que dormita no lugar à sua frente, em vez de um retrato frontal, exprime uma estética formal muito própria e revela também a parcialidade da perspectiva individual. Em consequência, o artista exprime através da sua visão a impossibilidade de conhecer o Outro que espelha a opacidade do Eu.
É certo que as horas em que existimos suspensos no ar são as horas em que vivemos num limbo. Milhares de metros acima do solo, fusos horários e contornos de continentes começam a convergir. As rotinas que levamos a cabo diariamente e de acordo com horários estabelecidos transformam-se em sequências intermitentes de movimento. Frequentemente, dormimos quando normalmente estaríamos acordados, acordamos quando deveríamos estar a dormir. O acto de viajar, de andar “na estrada”, torna-se num acto de modificação que afecta os nossos ritmos de vida diários, pelo menos durante o tempo em que nos encontramos presos nesse não-lugar de sonambulismo. De um modo semelhante ao sono, a mente vagueia entre a consciência e o sonho. Neste espaço liminal, não nos é possível nomear um ‘aqui’ ou ‘ali’, nem dizer se ‘chegámos’ ou ‘partimos’. Ao deslocarmo-nos através da estrutura semelhante a um labirinto construída por Bastos, revivemos inconscientemente os nossos movimentos e modos de existência a bordo dos aviões. Os limiares das fronteiras geográficas e do tempo podem parecer entrar em colapso nesta situação, porém os nossos espaços físicos e privados encolhem simultaneamente. Quantas vezes nos ocorre a mesma ideia perturbante de que, de algum modo, estamos a respirar o mesmo oxigénio limitado, o mesmo ar reciclado?
Enquanto a noção de viagem e de estar num não-lugar é frequentemente associada a uma visão utópica, universal de liberdade global e de liberdade de movimentos, o seu oposto é uma distopia – a da claustrofobia, que em inglês se traduz na expressão idiomática “cabin fever” (febre de cabine). Esta expressão idiomática e quase mítica na sua descrição refere-se a uma reacção claustrofóbica que se pensa ser um síndrome psicológico que ocorre quando uma ou várias pessoas ficam confinadas ao mesmo espaço por um longo período. A peça CABIN FEVER de Rui Calçada Bastos evoca uma vívida reflexão das associações românticas e anti-românticas da viagem num gesto singular e poético.
“Agora, por detrás do moderno azul deste aeroporto de vidro, ela descansa como uma borboleta nocturna que dorme, a sua sombra de contornos vagos estende-se pelo chão, lançada por uma imperfeita fonte de luz. Um fantasma apanhado num qualquer momento inexacto, invocando aquilo que os vivos queres esquecer. Quase a reconheço. Sento-me a seu lado por alguns instantes, olhando para o tarmacadame por detrás da galeria de observação. Aí, um Boeing 747 espera, na diagonal, à nossa frente. Aí, o pessoal de terra anda sem pressa por uma pista vazia. Algumas estrelas esbatem-se em manchas laranjas e brancas pinceladas num céu que clareia gradualmente.
Estou longe de ser aquilo a que se chamaria romântica, apesar de apreciar este espectáculo natural de mudança que se desenrola perante mim; aquilo que me acompanha e que é independente da minha existência.
Da noite à madrugada. Da madrugada ao dia. Céu. Céu azul.
As luzes de navegação vermelhas acendem e apagam-se nas asas do avião.
Uma vaga de claustrofobia abate-se sobre mim. Viajo demasiado.
A fadiga perdura. Náusea. Sinto as pálpebras pesadas; estou prestes a ser arrebatada de novo pelo sono à hora errada. Já perdi alguns voos assim, acordando em cima da hora; a quilómetros de distância, com a sensação de ter nascido tarde demais.”
Texto de Eliza Tan, escritora e curadora
Excerto de ‘1001 Nights, Reworked’ (Eliza Tan, 2008)
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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