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Sandra Cinto — Noturno

O trabalho de Sandra Cinto abraça o afectivo, através de uma prática que entende que o revolucionário não deve chegar através da violência, mas sim a partir do respeito. Seguramente é esse o verdadeiro lugar da arte e, por isso, a artista propõe uma viagem sobre o presente, universal e individual, expandido, mesmo quando a sua direcção é para dentro, revelando um particular compromisso com esse presente que, em muitos casos, se tinge de negro e se apaga. Porque Nocturno é a ocultação de uma desesperança paradoxalmente esperançosa. Daí, essa sensação de abismo. A paisagem é-nos oferecida pela desapropriação e a sua imensidade convoca uma nostalgia indiscritível. As imagens flutuam como ruínas da memória, convidando à entrada na incomensurável beleza de uma paisagem desprovida de figuras, como na pintura romântica, aquela que se agarrou a uma viagem pelo onirismo da noite. Essa grandeza da escuridão é já assumida pela Canção Nocturna que Nietzsche coloca na boca de Zaratustra. Porque durante a noite a paisagem dissipa-se e há que ser valente para avançar.
Confesso que gosto dos artistas que não temem a hora de olhar para trás. Não têm medo. Em Nocturno, Sandra Cinto retorna aos seus principais elementos formais. Fá-lo de uma maneira harmoniosa, como se unicamente se tratasse de acariciar o já anteriormente realizado.  Não se trata, porém, tanto de uma exposição retrospectiva mas, sim, de uma exposição introspectiva. Porque Nocturno é fruto da consciência, da memória. São imagens que se tornam visíveis à medida que se olham, dependendo da posição de quem as observa. Têm mais que ver com o tecer de Penélope do que com a impaciência de Ulisses. O desenho desenvolve a trama de um discurso. Porque devemos devolver aos artistas essa faculdade de poder tecer a história; a sua e muitas outras. O destecer nocturno de Penélope é um desenho sobre a memória que permite que que o discurso não termine. Nocturno revela essa dimensão feminina da espera para projectar-se como a rejeição de um patriarcado que retorna com a forma de extremismo político.
Na exposição Nocturno, o desenho sai da tela para o espaço, como uma explosão. No entanto, trata-se de uma composição melódica, com uma dinâmica de contrastes, próxima ao Nocturno Op.15 nº3 de Chopin, com os seus vazios e os seus silêncios, com áreas de grande densidade e outras de vácuo, com formas grandes e pequenas ou contrastes entre o claro e o escuro. Uma composição intimista, mas que, como na arte, tem a força suficiente para empoderar o ser humano.
Sandra Cinto convoca o político a partir do poético, posicionando-se perante a tristeza provocada por certas atitudes do poder que impõem o medo para evitar os avanços da sociedade. Daí a opção por trabalhar sem a cor, a partir unicamente do branco e do negro que, para além de centrarem o nosso olhar nas questões gráficas do desenho, projectam uma espécie de luto na paisagem. Opera-se, assim, a partir do simbólico para engendrar uma paisagem cósmica que convida ao voo pela sua condição de céu aberto, acompanhando a liberdade do seu desenho. Uma paisagem invadida pela poeira das estrelas; porque se é verdade que somos filhos das estrelas é porque somos luz e podemos fazer qualquer coisa. Outros motivos aos quais a artista tem recorrido em distintos momentos da sua trajectória, e que defende como necessários, são as pontes, elementos-chaves num momento em que a sociedade pensa em criar muros. Sandra Cinto quer ser ponte no mundo. Não quer ser muro. Também as lâmpadas, que são uma vontade de luz. Ou os baloiços, que são um desejo de liberdade e que remetem à falta de medo na infância, a essa conquista primitiva que é não ter medo de cair. É nesse sentido que se tomam também os abismos que, longe do olhar para baixo, nos convidam a voar. É por isso que o desenho se dobra e se desdobra, porque, como a artista me disse há muitos anos atrás: os livros têm asas.
David Barro (Maio, 2019)

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