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Shirley Paes Leme — O Ar Não Tem Lugar
A transitoriedade da matéria que compõe o rasto da experiência vivencial, sensível e subjetiva de tudo aquilo que nos rodeia constitui um dos pontos de partida fundamentais na obra de Shirley Paes Leme (Cachoeira Dourada, Goiás, Brasil). Num gesto que reside na observação desses vestígios materiais, que registam aquilo que normalmente não é notado, a artista questiona como estes nos afetam e o que significa verdadeiramente viver num meio cuja composição desconhecemos, mas que determina diretamente as condições da nossa existência. Em O Ar Não Tem Lugar, Paes Leme apresenta um conjunto de reflexões sobre as quais tem vindo a trabalhar desde a década de 1980. O Pó Habita, uma instalação composta por filtros de ar recolhidos em contextos urbanos distintos, apresenta-se como uma superfície de inscrição onde o invisível se revela. Ao serem deslocados para o espaço expositivo, estes filtros deixam de cumprir a sua função original e passam a operar como arquivos atmosféricos. Cada um deles contém um fragmento do ambiente de onde foi retirado, mas também uma acumulação de tempos distintos. Não são apenas registos de um momento, mas de uma duração e, nesse sentido, a sua superfície não é neutra, sendo antes o resultado de uma interação contínua entre fluxo e retenção, circulação e sedimentação. A partir destes objetos, o ar é entendido como um meio ativo de difusão e contaminação, um campo denso de relações, atravessamentos e interdependências. O que antes circulava de forma impercetível torna-se uma presença material legível, uma paisagem errante. Ao longo do tempo, todos estes dispositivos acumulam partículas suspensas na atmosfera, como resíduos de combustão, emissões industriais ou poeiras naturais, e transformam-se progressivamente em objetos densos, em gradientes escurecidos, quase opacos.
Neste contexto, as obras não mostram apenas a ausência de fixidez do ar, mas sugerem igualmente a impossibilidade de o conter ou de o delimitar. O ar está sempre em trânsito e, nesse movimento, revela a fragilidade das fronteiras que estruturam a nossa perceção do mundo enquanto um sistema vivo que liga aquilo que tendemos a separar: a natureza e a cultura, o corpo e o ambiente, o local e o global, o visível e o invisível.
Para além dos filtros recolhidos em Lisboa e São Paulo, são integrados elementos provenientes de contextos diversos, criando uma cartografia alargada de lugares. Em O Instante é a Respiração, a artista expõe a tensão entre o natural e o artificial, fazendo brotar elementos vegetais, galhos e folhagens, do interior desses objetos industriais. Esta sobreposição sugere a prevalência da natureza sobre a ação humana, enquanto aponta para a sua notável capacidade de regeneração e resistência.
Paralelamente, Paes Leme desenvolve uma reflexão crítica sobre aquilo que tende a permanecer fora do campo da perceção direta na contemporaneidade, isto é, a poluição como condição estrutural da vida
urbana dos nossos dias. O ar que respiramos nas cidades é partilhado, mas também profundamente desigual. A distribuição dos poluentes acompanha dinâmicas sociais, económicas e infraestruturais, revelando formas de violência ambiental que não são imediatamente visíveis, mas que atuam de forma contínua sobre os corpos. Neste sentido, os filtros não operam apenas enquanto objetos de contemplação, mas também como dispositivos que interrogam a própria condição de invisibilidade.
A compreensão do ar enquanto meio relacional pode encontrar um paralelo no fenómeno dos rios voadores. A par do movimento impercetível do ar, existem correntes atmosféricas que escapam igualmente ao olhar e desafiam as lógicas do território. Os rios voadores consistem em grandes massas de vapor de água que se deslocam pela atmosfera, funcionando como verdadeiros rios suspensos. Transportam humidade, influenciam regimes de precipitação e desempenham um papel fundamental na regulação climática de vastas regiões da América do Sul. A sua existência evidencia que a atmosfera não é um vazio homogéneo, mas uma estrutura dinâmica entrecruzada por fluxos complexos que sustentam ecossistemas inteiros. Esta imagem, simultaneamente científica e poética, permite compreender, uma vez mais, que o ar não é um elemento abstrato, mas uma infraestrutura viva e indispensável.
O Ar Não Tem Lugar atravessa esta consciência ligada ao cuidado, bem como a uma reflexão holística sobre o tempo enquanto dimensão material. O que permanece não é o objeto original, mas o vestígio da sua transformação. O ar deixa, assim, de ser entendido como um fundo neutro para passar a ser compreendido como uma trama viva onde florestas, cidades e corpos coexistem e se transformam mutuamente.
Carolina Quintela Junho 2026
creditos © pedro tropa
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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