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Tamara Feijoo — Breviário

Em parceria com Fundación DIDAC
Com Curadoria de Mónica Maneiro

Breviário

Um Breviário é um resumo de uma obra longa. É também um livro de memória ou um livro de notas. Neste contexto, o Breviário de Tamara Feijoo é uma pequena coleção de peças que funcionam como amostras e experimentos pictóricos. São espaços selecionados para pensar a própria pintura, ensaios de atelier, recorrências e descartes, que dão forma a um imaginário pessoal que funciona como um resumo de toda a sua trajetória profissional.

Neste compêndio em particular, o desenho e a pintura – os seus meios de expressão fundamentais – estão presentes em obras cujo suporte também desempenha um papel importante. Assim, a artista utiliza papéis velhos, afetados pela passagem do tempo, de antigos cadernos e pastas que ela própria compila para depois os transformar transformá-los na base do seu trabalho. A tábua de madeira também é um espaço recorrente nesta exposição.

A sua depuração inata desloca-se frequentemente para registos em que combina a sobreposição de planos e ensaios sobre a própria matéria pictórica.

Se nos seus primeiros anos, a obra de Tamara Feijoo tendia à representação de uma natureza invasora em todo o seu espetro, pouco a pouco essa presença do natural foi sendo suavizada e filtrada, e, nesse ímpeto, a artista atinge uma certa essência da pintura, pendente das propriedades específicas do meio, dos seus tempos e fórmulas.

 

Ao lado da natureza, a passagem do tempo tornou-se um tema essencial no trabalho da artista, na procura dos vestígios e ecos que esta tem nos seres vivos e na matéria orgânica. Nas suas próprias palavras: “O ser humano, a natureza e a passagem do tempo são os três pontos-chave da minha prática artística. O que era inicialmente um interesse pela natureza como algo incontrolável que escapa ao nosso domínio e controlo, que coloniza espaços e modifica o ambiente que consideramos nosso, transformou-se gradualmente numa investigação sobre a construção subjetiva da paisagem, a paisagem como uma criação do nosso olhar, bem como a influência que tem na nossa forma de ser ou de sentir”.

Breviário segue o caminho iniciado por Tamara Feijoo no seu projeto DOODVEW, em que resgatou a expressão de origem neerlandesa utilizada para definir a camada de cor opaca que fornecia os meios-tons. Tratava-se de uma pintura pobre, feita com pigmentos misturados numa emulsão aquosa, sobre a qual eram aplicados finos esmaltes de cores vivas e translúcidas, misturados com um meio gorduroso como o óleo. A presença desta primeira camada opaca proporcionava uma maior profundidade e verosimilhança e permitia que a luz fosse refletida de forma mais realista.

Partindo desta ideia, a artista produz agora em Breviário uma pintura em que o despojamento e a subtração se tornam fundamentais, propondo uma análise daquilo que sustenta a própria pintura como elemento estruturante. Tamara Feijoo fixa o seu olhar num espaço íntimo e pequeno, de relação com o pigmento e o suporte, com o traço pictórico, com os fundos e a combinação de cor, na procura do esmalte, da textura e da qualidade do próprio material.

Em Breviário encontramos a ideia da pintura como processo, como algo que encontra o seu potencial artístico muito antes do resultado final. Para Tamara Feijoo, tudo na pintura é importante. Até os suportes escolhidos determinam a qualidade da obra. Desse modo, as pequenas tábuas e papéis velhos são tratados por ela própria para obter as pátinas desejadas. Também o fundo da pintura feito com meio giz, branco espanhol, óleo de linhaça, cola de coelho e os pigmentos que dão profundidade, criam a estrutura da pintura. Um fundo conhecido como cor morta serve de base para a aplicação da cor final e também para a construção das imagens.

Em Breviário, Feijoo toma novamente como referência os mestres flamengos.

Aqui, a gama de cores é dominada pelos pigmentos de terra, o caput mortuum utilizado por estes mestres para recriar as túnicas dos cardeais. Um pigmento especial castanho-avermelhado com grande capacidade de transformação, que se torna púrpura com o primário, regressando ao seu estado original ao secar. A estes tons junta-se o óxido de cobre (azinhavre), que cria uma tonalidade esverdeada, utilizado para dar vida aos céus. Tamara Feijoo utiliza a cor tendo em conta seu componente simbólico, fazendo-a funcionar como um sinal. Através destes tons em Breviário pressentimos o retorno da artista à figuração, com imagens que têm sido utilizadas ao longo da sua carreira. Esboços de olhos, plantas, capas, peças de atelier, pequenos descartes que recriam o seu universo poético e pessoal.

Em Tamara Feijoo, a pintura volta a fugir de si mesma para nos devolver a sua capacidade representativa, mas sobretudo evocativa de um espaço pessoal que é o espaço da oficina, do atelier entendido como laboratório, como lugar de experimentação e de possibilidades a partir do qual se recria o universo.

Mónica Maneiro



Nota biográfica Tamara Feijoo

Licenciada em Belas Artes pela Universidade de Vigo, Tamara Feijoo foi reconhecida em quase todos os concursos dedicados à promoção da arte na Galiza: Bolsa no Concurso Novos Valores da Diputación de Pontevedra, Prémio Aquisição no Concurso de Artes Plásticas Isaac Díaz Pardo, Bolsa de Criação Artística no Estrangeiro Gas Natural Fenosa ou Prémio Julián Trincado na 12ª Mostra Internacional de Arte Gas Natural Fenosa.

Participou na feira de arte emergente JUSTMAD com a sua galeria Marisa Marimón e a sua obra encontra-se em importantes coleções como a Coleção CGAC, Coleção DKV, entre outras.

creditos © pedro tropa

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