BOX
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Vera Mota — Haze
Curadoria: Carolina Trigueiros
Foi na transição de 2012 para 2013 que Vera Mota apresentou uma das suas primeiras exposições individuais em Lisboa, na Appleton Box. Intitulada “Schema”, a exposição era composta por um conjunto de obras delicadas que ecoavam as condições e as possibilidades a que o desenho convida. Era já na altura evidente um interesse atento perante a qualidades dos materiais, aliado a uma dimensão performativa. O ímpeto de construir padrões, criar lógicas ritmicamente organizadas e a substância do erro, do acaso ou acidente, evidenciavam na prática artística possíveis eixos de tensão, conduzidos pela consciência do corpo, o gesto e a fisicalidade. A par com as próprias resistências e eventualidades do fazer escultórico, o corpo assumia-se assim como lugar central e referência primordial de acção. Como uma dança, o processo de criação revelava-se meditativo e proveniente dessa intimidade de proporções bilaterais, por via de um léxico amplo que se reinventa, recicla e renova desde então. Transitoriedade e permanência, resistência e vulnerabilidade, orgânico e inorgânico, formas corpóreas e superfícies frias são dicotomias enraizadas no vocabulário da artista e de uma constatação das propriedades físicas e estéticas dos elementos que explora como potencialidades adjacentes, ou rupturas desejadas.
Findos 10 anos, e por ocasião da celebração dos 16 anos de existência da Appleton, surge o ciclo “Get Back” e reúnem-se as condições propícias ao regresso de Vera Mota para um novo momento. Sem pretensões demasiadamente cronológicas, mas atendendo às naturais transformações da prática, é curioso pensar neste reabitar de um mesmo espaço onde nada poderá estar exactamente igual. As matérias têm vibração e os corpos que elas habitam também sujeitos à patine do tempo, lembram que tudo está em constante movimento, inevitavelmente no fluxo da impermanência. Regressar ou encenar o mesmo espaço é talvez como um cheiro antigo que se reconhece. “Haze” chega assim nesse estado de espírito em suspenso, esse possível aroma, toque, reconhecimento sensível. A neblina difusa que envolve as obras e deixa o espaço expositivo num limbo. O vapor enquanto condição indefinida e os elementos enquanto dissimulação ou fantasia enunciam uma atmosfera contemplativa.
Se em “Schema” Vera Mota integrava elementos de origem mineral, como a grafite, em combinação com outros materiais, como o couro, em “Haze” a centralidade recai no basalto, rocha vulcânica proveniente de temporadas de residência e investigação nos Açores. A fusão entre a mineralidade intrínseca da rocha e sua transformação numa forma maleável por meio da tecnologia cria uma tensão entre o natural e o artificial, entre a rigidez e a fluidez, as qualidades naturais da fibra e sua capacidade de ser manipulada pela mão. O desenvolvimento da fibra de basalto recorre a processos de manipulação avançados, incluindo a própria fundição da rocha, e contrasta com a sua existência enquanto corpo geológico da crosta oceânica. Como lembra Coccia*, todas as formas de matéria têm uma dimensão vital e a vitalidade não é exclusiva dos seres vivos, mas permeia todo o cosmos. Assim, os filamentos que repousam em silêncio enquanto instalação espacial, encontram caminhos entre os efeitos de luz e sombra, o tom das paredes que absorve e o branco e metálico dos suportes que amplia existências escultóricas. As qualidades ásperas e resistentes da fibra de basalto, aliada à sua reduzida pegada ecológica e resistência a altas temperaturas, fazem este material amplamente usado na construção civil, na industrial têxtil, eólica ou aeroespacial. A um aspecto futurístico contrastam qualidades aparentemente familiares, delicadas como um fio de cabelo ou um vestígio animal, um rasto de pêlo. Um estado de renovação ou emancipação como o réptil que muda de pele e deixa o seu antigo corpo para trás. Uma linha ténue derrete-se entre aquilo que se aparenta e o que é, num mundo de animismo escultórico, onde as perspectivas de corpo e materialidade são constantemente redefinidas num enredo de possibilidades entre as formas vivas e as inanimadas.
Podíamos dizer que Vera Mota usa lógicas de composição mínimas para destacar este fascínio pelos materiais e criar territórios plásticos que agregam signos e símbolos. A escala do corpo, man he says, is the measure of all things, of the existence of the things that are and the non-existence of things that are not**, é sabida e evidente, ora nos repousa-cabeças, ora noutras obras onde tem vindo a manipular elementos do seu próprio corpo num reconhecimento da interdependência e possível transferência de funções, como o pensar e o sentir. Mas a existência tem outras escalas e é justamente nesse embate e simultâneo anseio por outros corpos, biológicos, geológicos e inorgânicos, que a artista reclama novas perspetivas de substância e forma. “Haze” pretende assim encenar processos de transfiguração, desclassificação e transmutação dessas funções. Talvez sejam precisos 10 anos para, em retrospectiva podermos dizer que as preocupações aqui lançadas anteriormente ainda hoje dão frutos, na sua existência plural entre o visível e o invisível, a ordem e o caos, a ancestralidade e o que de mais vital virá do futuro. O contínuo perscrutar do indizível é o antídoto mais precioso para a uma “boa” passagem do tempo.
Carolina Trigueiros, Junho 2023
creditos © pedro tropa
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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