Sara & André

Sara & André (Lisboa, 1980, 1979) têm vindo a operar num limiar ambíguo entre prática artística, investigação e intervenção crítica. Os seus projetos tendem a desenvolver um comentário incisivo sobre os processos de legitimação artística, tornando explícitos os mecanismos institucionais, comerciais ou académicos que determinam noções de valor, visibilidade e relevância artística, tanto de artistas como de obras de arte. Não é portanto de estranhar que sejam filiados frequentemente à prática da crítica institucional, uma abordagem que questiona as estruturas, normas e práticas das instituições, desafiando as suas formas de poder, autoridade e controlo e propondo alternativas ou reflexões sobre o seu impacto na sociedade. No entanto, e ao contrário da crítica institucional mais estabelecida, que se posiciona numa exterioridade distanciada em relação ao objeto crítico, Sara & André trabalham a partir do interior do próprio sistema artístico, participando nas suas dinâmicas e utilizando as suas regras tanto como matéria de trabalho, como em benefício próprio. Dessa forma, criam um corpo de trabalho que é simultaneamente crítico e participante, levantando questões sem oferecer respostas unilaterais. Este posicionamento complexo delineia uma noção de criticalidade não como um distanciamento, mas como um envolvimento ativo e contraditório nos processos sobre os quais se debruça.

Um exemplo da forma complexa como a dupla questiona os processos intrínsecos ao mundo da arte pode ser encontrado na exposição individual apresentada no MNAC em 2014. Intitulado “Exercício de Estilo”, o projeto partia de uma abordagem de citação e homenagem a Julião Sarmento, um dos artistas portugueses mais reconhecidos internacionalmente. Ao referenciar a obra e a autoria de um artista incontestado, Sara e André assumiram o risco calculado de verem a sua própria autoria eclipsada, confrontando-se com um dilema de legitimação que sempre os intrigou. Entre a fama adquirida pelo prestígio de Julião Sarmento e as acusações fáceis de plágio ou falta de originalidade, Sara & André ensaiavam, nesta exposição, uma reflexão crítica e problemática em relação aos limites e características da singularidade e subjetividade autorais no contexto das artes visuais.

Além da reflexão crítica centrada em figuras incontornáveis como Sarmento, Sara & André também têm investigado os mecanismos de validação artística associados ao setor privado e, mais especificamente, à figura do colecionador. “O Colecionador de Belas Artes”, apresentado em 2022 na Galeria Quadrum, em Lisboa, partia da pintura homónima de António Areal para apresentar uma série de retratos de colecionadores rodeados das suas obras de arte. Ao fazer isso, a dupla expôs parte das dinâmicas de poder que moldam a arte contemporânea, tornando visível como os colecionadores têm um papel decisivo na definição de que artistas e obras ganham legitimidade e questionando como as redes de influência e as dinâmicas financeiras são essenciais para a perpetuação de um determinado cânone artístico.

O projeto mais recente da dupla, desenvolvido em 2025 para a exposição Diante do Tempo, surge na continuidade do projeto apresentado em 2023 na Casa-Atelier Vieira da Silva, em Lisboa, e ambos parecem sinalizar uma inflexão na pesquisa de Sara & André. Em Atelier, Lisbonne, os artistas reinterpretaram a pintura abstrata homónima de Vieira da Silva, criando uma instalação no próprio ateliê onde a obra foi concebida e o qual retratava. Através desta transposição espacial, da bidimensionalidade da representação pictórica, para a tridimensionalidade da instalação escultórica, os artistas exploraram o ateliê não apenas como o tema central da pintura de Vieira da Silva, mas também como o lugar de experimentação e reflexão sobre os processos da criação artística. De maneira similar, o novo projeto opera também uma pulsão tridimensionalizante, mas tendo como ponto de partida os frescos de Giotto na Capela degli Scrovegni, em Pádua. Esta inflexão formal na obra dos artistas não é mais do que uma aparência, ou uma questão formal, já que um olhar mais atento não tem dificuldade em encontrar no novo projeto as dinâmicas estruturais que tanto interessam a Sara & André, ainda que inscritas num contexto histórico que não o contemporâneo. Giotto, apesar de ser um pintor medieval, é de algum modo, um dos primeiros artistas “internacionais”, já que o seu estatuto à época foi muito para além da sua região de origem, tendo um impacto duradouro por toda a Europa. A Capela degli Scrovegni, por sua vez, encomendada por Enrico degli Scrovegni com o objetivo de promover a absolvição do seu pai do pecado de usura, é um exemplo do mecenato medieval, e dos seus objetivos, e não é dissemelhante da prática do colecionismo contemporâneo, já abordado pelos artistas.

A proposta da dupla é composta por dois objetos escultóricos de caráter marcadamente cenográfico que reproduzem no espaço expositivo elementos arquitetónicos dos frescos de Giotto. Sem título (Annuncio a Sant’Anna) reproduz a casa onde Santa Ana recebe o anúncio da sua gravidez, no entanto, Sem título (Giudizio Universale, scena della consegna del modello della cappella) não reproduz nenhuma arquitetura de uma cena religiosa, mas antes o modelo da própria Capella degli Scrovegni a partir de um fresco em que o patrono da capela é representado a oferecê-la à Virgem Maria, como um gesto simbólico de devoção.

Estas esculturas revestem-se assim de particular importância não tanto pela representação da devoção religiosa ou pelo resgatar contemporâneo de uma obra fundamental do cânone artístico ocidental, mas sobretudo, pelo contexto histórico da encomenda da capela e dos frescos a Giotto, e pelos objetivos do patrono, o mecenas, que procurava obter a salvação por meio desse processo. Neste novo projeto, recorrendo a uma cenografia e à performatividade a ela intrinsecamente associada, Sara & André apropriam-se da ideia medieval de salvação e do papel do mecenas, atualizando-os à luz das suas preocupações críticas e do contexto contemporâneo. A dupla questiona, assim, o papel do mecenas e de como a arte se inscreve numa narrativa de redenção, não apenas num plano moral, mas também, e talvez sobretudo, estético e social. Ao revisitar os frescos de Giotto na Capella degli Scrovegni, Sara & André propõem, uma vez mais, uma crítica sobre as relações de poder e valores na arte, que permanecem tão relevantes hoje como na época medieval.

João Mourão e Luís Silva 2025

Bio

Sara & André são artistas visuais, estudaram, respetivamente, Cenografia na Escola Superior de Teatro e Cinema (Lisboa, 1999-2005) e Artes Plásticas na Escola Superior de Arte e Design (Caldas da Rainha 1999-2005). Juntos estudaram Pintura na Sociedade Nacional de Belas Artes (Lisboa, 2008-2011). Vivem e trabalham em Lisboa e expõem regularmente desde 2006.

Realizaram e participaram em diversas exposições individuais e coletivas, em museus, galerias e espaços independentes de várias cidades, entre as quais as recentes: Impressões Digitais – Coleção MNAC no MNAC (Lisboa, 2024); 74 x Caldas = Uma Ideia Clara, uma parceria entre a Culturgest e a ESAD.CR, no Centro de Artes (Caldas da Rainha, 2024); Cravos e Veludo, no MNAC (Lisboa, 2024); #Slow #Stop…#Think #Move Território #2, na Culturgest (Porto, 2023), a antológica Look at me, no CAV (Coimbra, 2022) ou a coletiva 48 artistas, 48 anos de liberdade no MAAT (Lisboa, 2022).

Em 2014 apresentaram a individual Exercício de Estilo no MNAC–Museu do Chiado (Lisboa) em torno da obra de Julião Sarmento. Em 2017 comissariaram o ciclo de exposições Curated Curators, na Zaratan – Arte Contemporânea (Lisboa), do qual surgiu o livro Uma Breve História da Curadoria (Documenta, Lisboa, 2019). Em 2021 conceberam a edição especial da revista Contemporânea – Inquérito a 263 Artistas (Lisboa) e entre 2022 e 2024 desenvolveram o projeto O Colecionador de Belas Artes, consistindo numa exposição na Galeria Quadrum e num livro com as Galerias Municipais (Lisboa).

Integraram a Comissão de Aquisição de Arte Contemporânea do Ministério da Cultura (2019-2020), que os levou a co-comissariar a exposições Memórias Futuras no MIAA (Abrantes, 2021) e Dark Safari no Museu do Côa (Vila Nova de Foz Côa, 2023). Ainda como curadores assinaram os projetos House of Tigre, coletiva, no espaço Maus Hábitos (Porto, 2022), Rio, individual de Mestre José Pimenta, MIAA (Abrantes, 2021), O Verdadeiro Lado da Manta, coletiva co-comissariada, Centro Cultural Vila Flor (Guimarães, 2022) e Descuradas, coletiva no Centro de Arte Oliva (São João da Madeira, 2023) entre outros.

Desde 2023 têm também desdobrado a sua prática, colaborando com as companhias de teatro Plataforma 285, Teatro Praga e Cão Solteiro, bem como com coletivos como With ≤3 to Palestine, Arte pela Palestina, Climáximo e Greve Climática Estudantil. Estão representados em diversas coleções públicas e privadas e o seu trabalho é regularmente publicado em livros e revistas especializadas.

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /