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Adelita Husni-Bey — The Reading / La Seduta
A prática de Adelita Husni Bey desenvolve-se em torno de processos pedagógicos e actividades lúdicas, realizando experiências sobre os métodos e estruturas de coletivização em torno dos temas do urbanismo, trabalho, educação e direito. Estas concretizam-se frequentemente em registos documentais e instalações de criação colaborativa. A artista trabalha com diferentes grupos sociais, incluindo estudantes, crianças em idade escolar, ativistas, atletas, etc., e os seus projetos resultam de diálogos interseccionais com intervenientes de diversas áreas, durante os quais os limites comuns e a política são discutidos e postos em causa. Recorrendo a fóruns transdisciplinares e workshops de investigação, a sua prática de investigação suscita um debate mais alargado sobre as condições do trabalho, de coabitação e das ecologias do cuidado. Os participantes dos workshops são parcialmente proprietários das obras de arte e recebem uma parte dos lucros das mesmas a título perpétuo.
Nota da artista sobre a obra:
«A leitura do tarô pode ser entendida como prática pedagógica, uma vez que cartomante e participantes desenvolvem coletivamente uma narrativa que os ajuda a compreender, analisar e ultrapassar os obstáculos que lhes são colocados pela pergunta. The Reading regista uma sessão de leitura de tarô impulsionada por uma noção partilhada de proteção e reparação, refletindo sobre a distribuição desigual dos efeitos tóxicos da industrialização pelas estruturas sociais e ecológicas. Na preparação da sessão de tarô, os teóricos Hannah Black, Evan Calder Williams, Julian Noisecat e Elizabeth A. Povinelli foram convidados a discorrer, em diálogo com os participantes, sobre as 10 cartas criadas para o workshop: Extração, Solo, O Fim em Curso, Lixo, Vulnerabilidade, Valor, A Colónia, Ameaça Abstrata, Simulação, Ameaça Real. Estes temas foram selecionados a partir da investigação sobre a tribo Standing Rock e o seu protesto contra a passagem do oleoduto Dakota Access, que transporta crude sob o rio Missouri, a norte da Reserva Standing Rock, refletindo também sobre questões mais abrangentes, tais como a permeabilidade das fronteiras, a simulação e a função das diferentes perceções de ameaça. Por sua vez, os participantes criaram e protagonizaram uma série de scores performativos baseados em exercícios do Teatro do Oprimido com orientação da artista.
As cartas criadas refletem o funcionamento dos Arcanos Maiores num baralho de tarô convencional, uma vez que ilustram uma situação arquetípica que o cartomante tem de interpretar consoante a posição da carta e a questão escolhida. A forma como as cartas são distribuídas confere a cada uma delas uma posição temporal ou relacional, por exemplo, “passado recente/presente”, “como nos vemos a nós próprios”, “como os outros nos veem”, “obstáculos”, “esperanças e medos” e “resultado”. A questão escolhida coletivamente pelos participantes foi “qual é a nossa ligação espiritual com a terra?”, o que, por sua vez, originou um debate em torno da “terra” que estava a ser referida e de quem constituía este “nós”.
Os adereços de silicone que serpenteiam pelo espaço foram fabricados com componentes eletrónicos quotidianos e refletem os adereços utilizados no workshop e no filme, aludindo a um futuro povoado de próteses tecnológicas que funcionam como extensões do corpo humano e das suas potencialidades.»
The Reading / La Seduta foi uma comissão para o Pavilhão de Itália da Bienal de Veneza de 2017, dedicado ao tema da magia, com a curadoria de Cecilia Alemani. Quando me deparei pela primeira vez com a obra, percebi que ecoava os desafios então enfrentados pelos coletivos de ativistas portugueses que tentavam imaginar futuros pós-extrativistas ao mesmo tempo que tentavam pôr termo a dezasseis concessões previstas para prospeção de combustíveis fósseis ao longo da costa portuguesa. Presentemente, essas concessões já não existem. Porém, foram atribuídas novas concessões para a mineração de lítio no norte do país, o que põe em perigo o bem-estar dos ecossistemas. Apesar de não se preverem novos investimentos em combustíveis fósseis, o plano de recuperação económica elaborado para o país deslocou a sua mira para outras formas de mineração terrestre e oceânica, perpetuando a lógica extrativa com a desculpa de sustentar a transição energética.
Para desafiar os modelos económicos dominantes que permeiam a atual transição energética, é absolutamente crucial que existam ações de planeamento visionárias e debates comunitários sobre os arquétipos e alicerces da sociedade. Mais do que nunca, são necessárias formas de imaginário coletivo e criação de narrativas para que o propósito social seja redirecionado para a reformulação dos futuros terrestres.
Biografia da artista
Adelita Husni Bey é uma artista e pedagoga interessada em anarco-coletivismo, teatro, legislação e estudos urbanos. Tem vindo a organizar workshops e a produzir publicações, emissões de rádio, arquivos e exposições que se centram na utilização de modelos pedagógicos não competitivos enquadrados na arte contemporânea. Graças ao trabalho com ativistas, arquitetos, juristas, crianças em idade escolar, artistas de spoken word, atores, urbanistas, fisioterapeutas, atletas, professores e estudantes de diversas áreas, o seu trabalho dedica-se a analisar a complexidade da coletividade. A reparar aquilo que nunca poderá ser reparado: aquilo que devemos uns aos outros.
As suas exposições individuais recentes incluem: “White Paper: On Land, Law and the Imaginary”, Centro de Arte Dos de Mayo, Móstoles; “A Wave in the Well”, Sursock Museum, Beirute, 2016; “Movement Break”, Kadist Foundation, 2015; e “Playing Truant”, Gasworks, 2012. Participou nas seguintes exposições: “Being: New Photography 2018”, MoMA, 2018; “Dreamlands”, Whitney Museum, 2016; “The Eighth Climate”, 11.ª Bienal de Gwangju, 2015; “Really Useful Knowledge”, Museo Reina Sofia, 2014; e “Utopia for Sale?”, MAXXI – Museo nazionale delle arti del XXI secolo, 2014. Apresentou workshops e palestras em ESAD Grenoble (2016), The New School (2015), Sandberg Institute (2015), Museo del Novecento (2013), Temple University (2013), Birkbeck University (2011), entre outras instituições. Participou no Programa de Estudo Independente do Whitney Museum of American Art em 2012, foi bolseira da Graham Foundation em 2016 e representou a Itália na Bienal de Arte de Veneza de 2017 com um vídeo baseado em lutas antiextrativistas.
The Reading / La Seduta, 2017, instalação, vídeo 4K, 7.1 dolby surround, 15’33”, silicone e componentes eletrónicos.
Estrutura do workshop e design das cartas de tarô: Adelita Husni-Bey Participantes no workshop: Tina Zavitsanos (cartomante), Gus Moran, Nia Nottage, Farhan Islam, Nudrat Mahajabin, Katya Dokurova, Charlotte Lewis, Sandra Wazaz, Shao Lei, Amir Akram, Amanata Williams Diretor de Fotografia/Produtor: Charles Billot/Iniveway
Som: Florent Barbier
Banda sonora: Eugene Wasserman
Montagem: Adelita Husni-Bey
Pós-produção de vídeo: Laser Digital Film s.r.l
Cortesia de Collezione Taurisano
Apoio: Galeria Laveronica
Apoio principal: Instituto Italiano de Cultura
A Appleton é financiada pela República Portuguesa – DGArtes e pela Câmara Municipal de Lisboa
créditos © bruno lopes
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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