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António Poppe Rest on paper

para o António

é hoje tão raro um poema começar a pé
descalço, vazio
sem outra engenharia que a juntura dos artelhos, rótulas e ancas
articulados numa sequência motriz
a que o balanço dos braços – jogo difácil de contrapesos – o faz
avançar por estrada alguma

passam as centúrias, impérios, os apressados
atalhos digitais
mas o poema mora em sua respectiva demora e é sáfaro defronte
das rodovias e dos cabos de alta-tensão

e fez abrigo em si mesmo, no cavo de si mesmo
seus passos desregulam o débil engenho dos relógios
os atrasam para um-tempo-antes-da-invenção-dos-relógios
onde tendas e sendas se armavam sob a lentura dos astros
e os únicos ponteiros eram
galhos despidos baloiçando nas árvores

falas, visões, papéis
nada arruína o tugúrio de um poema alçado em absoluta paz
poema transeunte poema permanente
surdo, cego

imoto sobre os seus maciços clivosos, cérceo
dos golfos e lagos internos

e dizendo, para cá do jacto caligráfico e fora
do seu eixo, o estranho seixo do mundo

~ Miguel-Manso
poema escrito para a exposição ‘Rest on Paper’ de António Poppe, Lisboa, 2025

 

Rest on Paper insere-se num território onde a linguagem opera como dispositivo performático. O artista trabalha a palavra e o desenho não como meios distintos, mas como sistemas interdependentes que se activam no espaço, transformando a instalação num campo de forças entre abrigo e resistência.

Neste contexto, a instalação não se reduz a um conjunto de obras fixas, mas configura-se como um ambiente onde a linguagem se manifesta enquanto espaço, enquanto rasto, objecto, acção e presença. A escrita não é apenas registo, mas um acto que ocupa e modifica o espaço. O desenho sobre papel não se coloca como mera imagem representacional, mas como extensão do discurso, um dispositivo gráfico que desafia os limites entre escrita, voz e materialidade.

O título Rest on Paper convoca múltiplos sentidos: remete ao gesto concreto de pousar sobre o papel e à contínua prática de colagens do artista; sugere um eco de rest in peace, activando camadas de fragilidade e memória, o lugar de descanso; evoca o acto de pousar sentidos sobre o suporte, tal como o faz o artista, e propõe o papel em si como um espaço onde a criação se torna refúgio. A instalação materializa toda esta relação ao ampliar a reprodução de um manuscrito (um talismã Turco, material proveniente de arquivo da sua prática de colagens) com outra reprodução pousada sobre si, ao criar uma estrutura que vive neste lugar quase habitável — a palavra como abrigo, um amuleto que protege e fortalece.

No fim e em princípio, Rest on Paper pode ser lida como uma performance entre palavra e desenho, poder e refúgio, onde a própria ideia de repouso se activa: um descanso que não é inerte, mas uma forma de presença resistente.

Joana Fervença

creditos © pedro tropa

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