Appleton Recess (com Ana Hatherly, Pedro Diniz Reis e Sara Graça)
Bio Recess #4
APPLETON RECESS é um ciclo de exposições colectivas, iniciado em 2010, assente em premissas curatoriais que privilegiam o encontro entre gerações de autores, programas artísticos e meios de produção distintos. A cada edição são apresentadas obras de três artistas, cuja selecção pretende estabelecer um diálogo – por vezes mesmo um confronto – entre peças especificamente desenvolvidas para este evento e outras que recuperam alguma da produção menos acessível das últimas décadas da arte portuguesa. Todas as exposições são acompanhadas por uma publicação que reúne textos, ensaios visuais ou outra documentação, e que se assume como um corpo autónomo que procura ampliar ou complementar a experiência expositiva.
No âmbito da sua quarta edição, o projecto Appleton Recess procura o desenvolvimento de uma teia de relações assentes no uso e apropriação da linguagem enquanto matéria plástica, sígnica e simbólica. À semelhança de anteriores edições, o actual projecto expositivo partirá de uma seleção de obras de uma artista histórica, Ana Hatherly (1929-2015), para as articular com dois núcleos de trabalhos distintos: por um lado, um conjunto de obras com as quais Pedro Diniz Reis (1972) explorou, no final dos anos 2000, composições visuais e sonoras de inspiração concretista, sensoriais e fortemente imersivas; por outro, um grupo de obras de Sara Graça (1993), parte delas comissionadas especificamente para este encontro, que permitam aprofundar outras linhas de confluência entre estes núcleos, como sejam a incorporação criteriosa de materiais vernaculares ou uma dada tendência para a dissolução dos signos e da carga representativa no território da abstração.
Bio Ana Hatherly
Ana Hatherly (8 de maio de 1929 – 5 de agosto de 2015) foi uma académica, poeta, artista plástica, ensaísta, cineasta, pintora e escritora portuguesa. Foi considerada uma das pioneiras do movimento da poesia experimental e da literatura experimental em Portugal. Licenciou-se em filologia germânica na Universidade de Lisboa e doutorou-se em estudos hispânicos na Universidade da Califórnia, Berkeley, tendo também formação em cinema e música. Hatherly foi professora de Ciências Humanas e Sociais na Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Instituto de Estudos Portugueses. A sua obra foi exposta em instituições como o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, o Museu do Chiado ou a Fundação de Serralves, tendo integrado também mostras de relevo internacional como a Bienal de Veneza e a Bienal de S. Paulo (Brasil).
Bio Pedro Diniz Reis
Pedro Diniz Reis (Lisboa, 1972)
Vive e trabalha a partir de Lisboa
Licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa em 2000.
No início do seu percurso artístico criou uma série de obras em vídeo relacionadas com o seu interesse pelo tema do fetichismo enquanto expressão e sublimação do desejo que culminaram com uma exposição na Fundação Calouste Gulbenkian no âmbito do projecto SlowMotion. No final de 2003, no seguimento deste corpo de trabalho, o artista iniciou uma aprendizagem das técnicas do shibari, palavra japonesa para “atar”, que designa igualmente uma prática muito enraizada na subcultura ligada ao fetichismo e ao sadomasoquismo. Em 2005, realizou uma despojada performance na Galeria Cristina Guerra, em Lisboa, em que o shibari se emancipava dos códigos culturais e estéticos próprios do seu contexto de origem, para ganhar uma extraordinária ressonância enquanto trabalho de escultura e à luz da história do nu na arte ocidental. A apresentação foi repetida em 2016, na Culturgest, Lisboa.
A partir de 2004 começou a trabalhar com signos linguísticos como matéria abstrata, puramente significante, e aplicando regras predeterminadas de organização desses elementos, o artista realizou um conjunto de composições visuais e/ou sonoras (usando o vídeo, o som e o livro como media) que induzem uma experiência fortemente imersiva. A vídeo instalação “Alphabet (Portuguese)” apresentada na Appleton em 2008, destaca-se pelo seu abstracionismo diagramático, baseado em sistemas preexistentes de quantificação espácio-temporal ou métodos de recolha de dados. Também o “Livro dos AA”, 2010, editado no âmbito das exposições de Diniz Reis na Culturgest (Porto e Lisboa), em que o trabalho com signos linguísticos toma a forma de letras, sons e palavras escritas ou faladas, formando ritmos e composições. Apesar de o artista continuar a trabalhar desde então com este corpo de trabalho da sua obra, tem-se desenvolvido também em performance e numa série de outras vídeo-instalações.
Bio Sara Graça
Sara Graça (Lisboa, 1993) vive em Londres e trabalha de forma interdisciplinar, sendo recorrente a escultura, o desenho, a fotografia e o vídeo. Na sua prática, é recorrente questionar ideias de valor, autenticidade e subjectividade. Licenciou-se em Artes Plásticas na Faculdade de Belas Artes do Porto (2015) e fez mestrado em Fine Art na Goldsmiths College (Londres, 2024). Exposições recentes incluem New Contemporaries (ICA, Londres, 2025); La Mafia de Las Flores (Galeria Ángeles Baños, 2025); New Contemporaries (MIRROR, PLymouth, 2024); Desenho (Eye to Pencil, Londres, 2024); SingSong (ZDB, Lisboa, 2024); MFA Degree Show (Goldsmiths, Londres, 2024); Bodies of Resistance (Pedro Cera, Lisboa, 2023); Neyeyeght (Francisco Fino, Lisboa, 2023); Ana, Tina, Sara, Ben (Ampersand, Lisboa, 2022); Novas Novas Cartas Portuguesas (Galeria Quadrum, Lisboa, 2022), Warhol, People and Things (Casa de São Roque, Porto, 2022), Bisi Bisi (Uma Certa Falta de Coerência, Porto, 2022); B Blossoms (MALA, Lisboa, 2022); No inferno às 9 (Galeria Solar, Vila do Conde, 2021); Clube-Estrada-Praia (Spirit Shop, Lisboa, 2021); Ratazanas e Calendários (Sismógrafo, Porto, 2020), entre outras. A artista trabalha também no contexto da música e as suas colaborações tomaram a forma de performance com Toda Matéria (em apresentação no CCB, Passos Manuel, Galeria Quadrum, Cosmos, Out.Fest, ZDB, Lehmann/Silva), instalações de palco com Maria Reis (Teatro do Bairro Alto e Fundação Calouste Gulbenkian) e produção de videoclipes para Maria Reis, Princ€ss, Luar Domatrix e Gala Drop. Sara fundou o espaço Vésta (Porto, 2015-2016).
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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