SQUARE

Belén UrielOtoño

Curadoria: Appleton Get-Back: Carolina Trigueiros

É Outono e sabe-se desta estação a sua capacidade regenerativa; as folhas caem, os dias mais pequenos; pede-se recolhimento para acompanhar a mudança cromática e térmica do exterior. É Outono agora e assim o era há uns meses em São Paulo, quando Belén Uriel encabeça a produção destas obras numa residência possibilitada pela Appleton. Altura do ano propícia à introspecção, há qualidades sinuosas e de abrigo que se ampliam nestas esculturas que se erguem do chão e habitam o espaço na sua constituição anatómica e inorgânica. A sua escala remete ao corpo e o olhar de quem se aproxima é detido na opacidade côncava de estruturas foscas de vidro que, à semelhança de carapaças, retraem a luz e a sua capacidade revelatória.

Há uma rigidez inerente nestes elementos que se fazem de escudo, possivelmente contra as adversidades da passagem do tempo ou da sua própria condição contingente. A materialidade fixa do vidro e posterior edificação contrasta com a maleabilidade do seu molde que agregou texturas, memórias vegetais e minerais, cicatrizes à semelhança de uma pele vivente. São capas de protecção que convidam à circulação e contemplação da sua interioridade. É na fronteira entre o exterior e o interior, positivo e negativo, que o olhar embate nos objectos que se afiguram íntimos nos detalhes e nas suas relações comunicantes e sugestivas, passíveis de ser activadas por via de uma imponência colectiva.

Os objectos, por sua vez, são mutantes. Fitas de mochila confundem-se com filamentos; despojos de cadeiras industriais monobloco com a fisionomia de um esqueleto; entendemos peças onde manifestamente se revelam os seus suportes; o ponto de contacto que indicia a sua idiossincrasia protética. São membros de um

corpo embutidos de memória fragmentada, afectiva ou industrial, indissociáveis de um quotidiano tantas vezes omnipresente, os signos da globalização desenfreada, esvaziada de contexto. É no domínio do antropomórfico que identificamos um torso ou uma orelha; um capacete onde ressoa a memória do seu desígnio utilitário desfeito ora por via de uma apropriação rigorosa, ora pela transformação na mão da artista que recorre à fundição, em vidro ou alumínio.

É possível que estas obras, [Shell, 2024], e a sua imobilidade delicada falem de um lugar de transitoriedade morfológica, familiar à produção da artista nos últimos anos. Afinal “Otoño”, além de tudo mais, é um regresso de Belén Uriel à Appleton e um revisitar de temáticas e interesses passados nestes quase 14 anos. Foi precisamente nesta morada em Alvalade que a artista apresentou a sua primeira individual em Lisboa, “Ni blanco, ni negro”. Era início de 2011.

Nessa exposição finda, o foco no pedestal, enquanto símbolo de monumentalidade, e nos guardanapos cerimoniais, como esculturas efémeras, já prefigurava uma preocupação com a escultura enquanto sistema relacional. A fragmentação das esculturas de chão sugeria tanto o desmantelamento de narrativas hegemónicas quanto a possibilidade de recomposição de outros sentidos. De forma semelhante, a prática actual de Uriel mantém-se vinculada à potencialidade de intervalos, momentos de suspensão que convocam o carácter transitório e mutável dos objectos.

Enfim, é ao longo de mais de uma década de produção intensa, contínua, sempre viva, que a artista reinventa o seu léxico e nele reconhecemos referências e pistas à navegação que dispensam apresentações. Em “Otoño”, mais do que em “Ni blanco, ni negro”, pressentimos esse organismo que se chama maturidade e respira no espaço; pode ser auscultado. Também na natureza, quando tudo se encontra votado ao declínio e a terra coberta de folhas outonais, nascem flores, flores de outono podem amparar a melancolia dos dias.

Carolina Trigueiros, Dezembro, 2024

Bio Belén Uriel

(Opcional) / Get Back [Ciclo], texto de Abril 2023

Em 2023, quando a Appleton celebrou 16 anos de existência foi motivo para novos ciclos, balanços e outras continuidades. Porém, a celebração não chegou sem antes um inesperado interregno e o seu silêncio, que intensificou um forçoso pensar sobre qual é, afinal, a importância das associações culturais e dos espaços independentes dedicados à programação e divulgação artística na cidade.

A importância desta confluência de artistas, músicos, performers, curadores que entram e saem por estas portas ao longo dos anos e aqui encontram uma caixa de afectos com paredes que conservam as vivências. Parece-me que a Appleton nasce e floresce de relações de empatia, com vista à longevidade. E isso faz com que este convite para me juntar ao ciclo Get Back seja também um começo de mais uma – uma pequena semente lançada em terra fértil. Acredito que lugares que acolhem a criação artística tem campo magnético. Confidentes das questões que atravessam as obras e os criadores, despoletam possibilidades e inevitáveis embates. É preciso atender às lutas pela preservação da sua subsistência, e à subsistência das lutas que neles brotam. O ciclo Get Back chega assim da necessidade de se fazer uma celebração que é também uma forma de resistência. De persistência cuidada.

A premissa para este ciclo é simples, o convite a artistas que já aqui tenham exposto no passado e que possam voltar para um novo momento. Criar pontes e implicações à luz de um hiato temporal, com vista à possibilidade de (re)pensar, (re)contextualizar ou (re)olhar as suas práticas e as próprias condições do lugar. Get Back é essa possibilidade e zona de atuação, dentro da esfera inicial. Acontece numa brecha contracorrente e resgata artistas que contribuíram, cada um/a da sua forma, para estas fundações. O antes e o depois, o agora e o que virá, as circunferências permanentes e as conjunturas que sempre se transformam e por vezes, felizmente (esperemos), se reencontram. A arrancar com “S/Título (Get Back)”, performance duracional de Susana Mendes Silva (Lisboa, 1972) no mês que marcou o 16º aniversário da Appleton, este ciclo contou, em Junho de 2023 com a exposição “Haze” de Vera Mota (Porto, 1982) na Box e, agora em Dezembro de 2024, prestes a celebrar os 18 anos, com Belén Uriel (Madrid, 1974) na Square.

creditos © pedro tropa

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