SQUARE
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Bruno Cidra — Aquarelle
Aquarelle: quase se consegue ouvir o deslizar do pincel por sobre o papel, que estremece ao seu toque, absorvendo o pigmento diluído em sucessivas camadas transparentes. A palavra evoca um gesto prolongado de cor – leve, fluido, quase que suspenso.
Talvez seja precisamente esta promessa de leveza que torna o encontro com as obras de Bruno Cidra tão inesperado. As esculturas e os relevos aqui reunidos para a sua exposição individual na Appleton Square não revelam, à primeira vista, a sua origem no papel.
Feitos em papel maché, os trabalhos de Cidra transformam a folha de papel e levam-na para além da sua condição bidimensional. Embebido em cola, pintado, dobrado, cortado, enrolado, sobreposto e combinado, o papel ganha volume e resistência. Um material simples e frágil torna-se capaz de produzir estruturas volumétricas complexas.
Algumas das obras de parede penetram no espaço em emaranhados de formas que se assemelham a tubos, fragmentos de objectos ou pedaços de tecido, sustentados em torno de pontos de tensão. Outras assumem a forma de esculturas de grande dimensão, suspensas ou colocadas sobre o chão, com estruturas que se abrem em todas as direcções.
Mais do que construir um mundo figurativo, Bruno Cidra reúne um repertório ambíguo de formas industriais: tubos e condutas, materiais descartados, fragmentos de ferramentas e utensílios cujas funções originais se perderam. Desmontados e remontados, estes elementos tornam-se parte de configurações totalmente não funcionais.
A paleta restrita – uma constante na obra de Cidra – reforça este imaginário mecânico. Tons de verde, ocre, verdigris, castanho e cinzento, a par das formas tubulares das esculturas, evocam metais e superfícies oxidadas. Mas as peças nunca são inteiramente mecânicas. As suas linhas curvas, acumulações irregulares e equilíbrios instáveis também lhes conferem uma qualidade orgânica, por vezes quase antropomórfica.
Será talvez esta intersecção entre um imaginário mecânico ou industrial e o carácter biomórfico e antropomórfico das composições de maior dimensão que nos faz lembrar figuras visionárias imaginadas muito antes do nascimento da cibernética. Um exemplo disto pode ser encontrado na invulgar série de gravuras de Giovanni Battista Bracelli, Bizzarrie di varie Figure (1624), na qual figuras humanas fantásticas são compostas a partir de utensílios de cozinha, molas, caixas e correntes. Estes seres imaginários e desprovidos de ossos – reduzidos a um grau extremo de esquematização – impressionam não só pela criatividade, mas também pelo seu equilíbrio formal. Surpreendentemente parecidos com os robôs modernos, os seres representados nestas gravuras levaram a que Bracelli fosse considerado um insólito precursor das experiências de deformação levadas a cabo pelas vanguardas históricas.
As esculturas de Bruno Cidra encontram-se igualmente suspensas entre o mecânico e o orgânico. Podendo evocar organismos como plantas e insectos e, ao mesmo tempo, máquinas e robôs imaginários, são produzidas com recurso a meios decididamente modestos: papel, cola, pigmentos e processos manuais. A sua aparente complexidade resulta da dobragem, da sobreposição de camadas, da junção e da acumulação, e não da produção industrial. O imaginário futurista de Cidra é construído a partir de materiais elementares e dos vestígios acumulados do trabalho manual.
A obra do artista não procura resolver esta contradição. Pelo contrário, permite que esta permaneça activa. As esculturas são construídas, porém, por vezes, assemelham-se aos vestígios de uma construção; evocam objectos industriais ao mesmo tempo que as suas superfícies revelam os efeitos do tempo e da matéria; possuem a solidez da escultura e evocam a estatuária em bronze, mantendo, contudo, algo da sensibilidade à luz associada à pintura. O papel pode assumir o aspecto rígido de um tubo ou de um elemento estrutural, enquanto as formas aparentemente rígidas conservam algo de mole, elástico e quase orgânico.
O olhar percorre os diferentes elementos e as formas curvas, atraído pelo jogo de luz e sombra, seguindo os percursos labirínticos dos tubos, onde o início e o fim são difíceis de identificar. O papel endurece numa nova configuração, mantendo, ao mesmo tempo, uma sensação de mobilidade; a pintura torna-se volume, superfície, sombra e intervalo.
Nesta experimentação contínua, a forma final da escultura não é totalmente determinada à partida. A própria matéria participa no processo, oferecendo possibilidades, opondo resistência, sugerindo desvios e estabelecendo uma relação com o espaço circundante. As dobras, as torções e as juntas são, ao mesmo tempo, elementos estruturais e vestígios dos gestos que as criaram.
Neste sentido, Aquarelle remete para algo mais do que a aguarela. Sugere um modo de pensar a forma como algo que evolui gradualmente: através da acumulação, da sobreposição, da aquisição de consistência, ao mesmo tempo que retém algo da sua fluidez original. As esculturas surgem, assim, como configurações temporárias no âmbito de um processo aberto, suspensas entre a construção e a possibilidade, entre a realidade material da sua execução e o imaginário tecnológico que evocam.
Sara de Chiara
creditos © DSC
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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