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Gisela Casimiro — In this new picture your smile has been to war
O futuro não está arquivado
Quem conhece o trabalho de Gisela Casimiro sabe que a prática do registro é uma constante no seu movimento como poeta e artista. É da observação do cotidiano que parte muito da sua produção. Um exercício que pode parecer um impulso tautológico, mas que na verdade demonstra como a artista segue uma metodologia arqueológica baseada numa sensibilidade estética e cívica sobre o mundo que a rodeia. Gisela Casimiro não está alheia. Pelo contrário, encontra na prática da coleção uma forma de estabelecer a narrativa da sua própria poética.
A exposição “In this new picture your smile has been to war” retrata uma parte deste fazer. A artista traz para a galeria a arte do arquivo como elemento fundamental para a produção de discursos autônomos que deêm conta das ausências causadas pela sub-representação documental do trabalho de artistas negros na construção de seus próprios inventários.
É axiomático dizer que a autonomia é parte do papel do artista como arquivista, ou seja, aquele que, através do seu exercício de compilação estabelece uma forma única de criar a sua própria explicação do mundo. Mesmo que esta coleção seja um fragmento da memória na tentativa de eliminar ou diminuir o esquecimento coletivo sobre um tempo ou sobre um acontecimento, a arte do arquivo consegue ainda preservar uma multiplicidade de enunciados cumprindo, assim, a sua função discursiva.
Embora o arquivo não seja algo definitivo (ele acaba por se manter submisso às subjetividades de quem o lê), a sua virtude mantém-se como um instrumento que possibilita variadas interpretações. O arquivo passa a ser também autônomo. Mesmo que a sua criação tenha sido concebida de modo minimamente cronológico, o arquivo não é linear. Ele guarda em si a manifestação singular de presentificação física da informação histórica que muitas vezes é esquecida, perdida ou simplesmente suprimida. O arquivo manifesta uma presença. O arquivo é uma mensagem. O arquivo é uma voz.
A prática do registro pela fotografia como forma sistemática de uma ação convoca, no trabalho de Gisela Casimiro, uma vontade e uma necessidade urgente de manter na lembrança os temas que circulam no imaginário da rua. Aqui, a efemeridade – esta coisa que é vista como uma ameaça iminente contra a memória – é um elemento que se objetiva através da sua intensa prática de colecionar. O trabalho acumulativo recupera a figura do artista como agente social que acompanha o tempo em que vive, fazendo da arte não apenas um objeto para a fruição descompromissada, mas como um instrumento de reparação histórica.
A rua é ainda um lugar tratado de modo tão comum e trivial que é, por vezes, esquecida. A correria, o tempo marcado e a hipnose dos telemóveis fazem coro para que não se olhe com atenção para os que as paredes e muros gritam. Gisela Casimiro tem o olhar acautelado. Seu trabalho é um grande exercício de escavação social da rua na busca pela constituição de um movimento de recuperação mnemónica do papel do espaço público enquanto elemento estruturador das lutas sociais. É a rua que fala e aqui Gisela é quem a ouve.
Em “In this new picture your smile has been to war”, a artista se afirma a partir da invocação de uma autoria cartográfica. Quem constrói a memória guarda em si o poder de criar a própria história. Se o arquivo é o lugar de construção ontológica de um passado imanente, é através de uma anatomia da rua que a artista procura validar uma narrativa a partir da ideia de auto-curadoria. Ela é a sua própria curadora. Através da documentação, estabelece a profusão daquilo que ela decide que pode ser visto, lido e preservado. O arquivo manifesta a sua presença. O arquivo é a sua mensagem. O arquivo é a sua voz. Uma voz que se põe na fronte na tentativa de transformar narrativas defasadas em possibilidades mais justas num futuro que não está arquivado.
Rodrigo Ribeiro Saturnino (ROD)
Pesquisador e artista visual
creditos © pedro tropa
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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