Javier Fernandes — Stay a while
O mesmo e o novo
Nós, pelo contrário, vemos bem que a repetição é uma conduta necessária e fundada apenas em relação ao que não pode ser substituído. Como conduta e como ponto de vista, a repetição diz respeito a uma singularidade não permutável, insubstituível.
-Gilles Deleuze, Diferença e Repetição
A repetição é potência de qualquer linguagem. A repetição é produtora de diferença, não cabendo no seu espectro de acção a gratuitidade do gesto nulo. A experiência do mesmo não deixa de produzir o novo, sendo a repetição uma praxis inventiva, por excelência. Não por acaso, a repetição (entendida no sentido deleuziano) é instância fundamental na obra de Javier Fernandez. Cada gesto, repetido pelo artista – não permutável, insubstituível – , concorre para uma composição rítmica visual que suspende o tempo, o espaço e as espessuras sociais e culturais que envolvem a experiência contemporânea.
A sua prática artística configura-se, assim, através de uma monotonia construtiva que concretiza, em media distintos (principalmente tapeçaria, mas também vídeo), forma, cor e matéria. Esta tríade insinua-se como meio e fim em si mesma, não havendo espaço para distinguir a ontologia e a axiologia da obra de arte. A ausência de pretensões sociais, políticas ou ideológicas, assim como a impermeabilidade hermenêutica da obra de Javier Fernandez, agudizam uma ética criativa que se traduz numa estética de serenidade e comprometimento visual.
Este comprometimento revela-se, em primeiro lugar, na dimensão das tapeçarias que cria e que permitem discernir a morosidade da acção artística, da performance que acumula a repetição do mesmo gesto e que cria o novo: um novo corpo que habita o mundo enquanto o interrompe. Em segundo lugar, no modo como a superfície têxtil convoca a construção de uma temporalidade singular, em que as unidades cronométricas (segundos, minutos, horas) são substituídas por um acenar de gestos e olhares que ditam a cadência da aparente imobilidade das (enormes) superfícies rectangulares – Last Green e Last Red – que apresenta agora na Appleton Square.
A arquitectura do espaço de exibição é interrompida por uma nova parede que o divide e possibilita a observação de cada obra separadamente. Esta acção responde a uma necessidade específica destes objectos artísticos que não sendo monocromos, reflectem sobre a monocromia e o que há de autenticidade na cor, na forma e na matéria e, por consequência, requerem um espaço de acolhimento sem a interferência do convívio objectual.
As obras de Javier Fernandez são exercícios concretos da mão e do espírito – tal como os descreve o artista – e, por isso, seja nas tapeçarias ou no vídeo, é aplicada uma mesma matriz que consubstancia a hipertrofia sensível do artista e do espectador. Cada médium, na sua especificidade, é colocado ao serviço de uma materialidade imaterial que supera a distinção entre forma e conteúdo, sensível e inteligível, imanência e transcendência.
As exigências do seu processo criativo – tempo, repetição e criação – conferem à sua obra um estatuto singular que exige um espectador singular e predisposto a uma contemplação que sincroniza o corpo e o espírito. Nesse sentido, a obra de Javier Fernandez celebra a dialéctica mesmidade-novidade na elaboração/contemplação da forma artística, não como sistema de opostos neutralizadores, mas tomando o mesmo e o novo enquanto constituintes obrigatórios de uma mesma inter-relação produtiva.
A repetição do mesmo gesto produz novas formas, a repetição do mesmo olhar, novas imagens. Stay a while. Se ficar, ficará ocupado.
Ana Cristina Cachola
Maio de 2015
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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