SQUARE
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Luisa Cunha — Partitura #5
This is the time.
And this is the record of the time.
Laurie Anderson[1]
Começa com um ronco ténue, quase gutural. O som aumenta, vai aumentando. Amplifica-se progressivamente, passa por vários ritmos, por diferentes variações e durações. Interrupções, prolongamentos. O ronco mantém-se, e o tempo parece agora durar muito mais tempo. O som está muito perto: é grave, rouco, profundo, hostil quando acelera. Mas logo passa a um assobio agudo, enfraquecido na sua desaceleração. Estão a perfurar uma parede do edifício. Estão a abrir-lhe um buraco. Estarão a demolir uma parede?
Adjacente à coluna de som, qual corpo hirto e possante ao centro da sala, foi afixado um aviso: a galeria entrará em obras a partir desta data. Promete-se a maior brevidade possível; agradece-se a compreensão por qualquer incómodo causado, assina Luisa Cunha.
O motor arranca na sua máxima potência, outra e outra vez. Entre as pausas deste som ritmado, perturbador na sua intensidade, ouvem-se vozes. Alguém trauteia uma cantiga, outrem assobia distraidamente, ouve-se música a passar na rádio. Nas pausas de silêncio, muito breves, passageiras, o silêncio torna-se agora um elemento estranho, pois o ruído preenche todo o espaço, consome-o. Na tarefa de nos concentrarmos para desmantelar e compreender a situação em que nos deparamos, logo nos perdemos. Voltamos a tentar focar a atenção, mas o ruído persiste e desconcentramo-nos novamente. É o som do ribombar de máquinas e de trabalhos duros de mãos. Esmurra, bate, martela, raspa, varre, espalha, nivela, bate, rebate. Quando cercados por este som distorcido, a cabeça fica absolutamente cheia, pesada, e chegamos a pensar que somos incapazes, no limite das nossas capacidades e esforços, de pensar sequer. Somos espectadores tácitos desta orquestra coesa que projecta algo que se edifica muito perto de nós. No entanto, o mais curioso e o mais surpreendente é que, deste acontecimento comunicado, só lhe conhecemos o som e, sobre o mesmo, podemos somente imaginar os comportamentos e os gestos, os movimentos praticados, pois não assistimos às tais obras em curso. É o som intenso, ritmado, ruído ora incessante, ora intermitente, desconfortável, que toma conta do lugar que ocupamos.
Toc toc toc…! Toc… Toc! Toc!
«– O que foi…?», pergunta uma voz lânguida ao longe, meia cantada e descomprometida, depois de se ouvir o ladrar de um cão. É então que vozes afeitas e gargalhadas genuínas se fazem ouvir, contrastantes sobre o som das obras a decorrer. Toc toc toc…! «– Está alguém a bater à porta?» – perguntamo-nos. Quem é? Quem assobiou? Que porta foi aquela que se abriu e fechou? Quem é que se está a rir?… E a parede continua, lenta e ressonantemente, a ser esburacada…
É então que nos apercebemos que não; não sabemos bem o que foi que nos atrapalhou. Talvez a nossa experiência de extrema agitação e incómodo, por influência de um som que tão bem conhecemos, se deva à condição primeira que nos compõe: a de nos propormos sempre exigir provas concretas e a atribuir sentidos mediante uma primeva procura de encontrar ordem no caos, estabilidade na inconstância, certeza na expectativa, ou de encontrar sonoridade no tremendo ruído, de descobrir um lugar no espaço que momentaneamente ocupamos. Reconhecemos, então, que o som é, ele próprio, aqui tornado matéria tangível porquanto evocado à presença num espaço que, aparentemente, não lhe corresponde. O som é objecto que se faz presente, é textura, é substância que vibra, que remexe, que nos agita e provoca. É constância e instabilidade, continuidade e suspensão, repetição e pausa, ruído e silêncio – esta peça sonora revela-se como um registo da substância do tempo que perfaz a matéria daquela que é a sonoridade de uma qualquer acção de construção, de composição.
Luisa Cunha mostra-nos que o som tem esse peso genuíno, que possui uma intensidade profunda, reveladora de uma força que desafia verdadeiramente a nossa percepção. Como numa sinfonia, a articulação dos instrumentos cria algo estrondoso sob diferentes cadências. O trovejar das máquinas e mecanismos de construção faz-se sentir, em crescendo… É o som ritmado da desconstrução, da destruição, da mudança, da edificação e da criação que têm aqui e agora lugar.
Com efeito, esta é uma Partitura que foi anotada e composta sobre um momento passado que vem a ser aqui tornado sempre presente, aquando da visita e passagem dos espectadores. E, com a mestria que lhe é conhecida, Luisa Cunha cria e recria esta tensão entre o espaço ocupado, a experiência do visitante que o ocupa e o som que o envolve e imerge, que o consome e liberta, mediante uma engenhosa proposta em tom de desafio e de ironia. Mas mais do que a representação de uma dada ausência que se pode tornar tremendamente presente – a experiência de um gradual desconforto, exasperação e incómodo latentes por influência do som ocorrem em virtude disso mesmo –, a obra de Luisa Cunha traz à nossa presença, sobretudo, o reconhecimento de que a arte tem que ver com as emoções suscitadas mediante um encontro inesperado e furtivo com as nossas próprias limitações e fronteiras pré-concebidas perante situações que denominamos de «insólitas». Por outras palavras, quando a experiência da evidência é vencida pela experiência da ilusão. É, pois, Luisa Cunha quem, com uma comicidade atenta e astuta, assina um pedido de desculpas e apela à compreensão dos visitantes pelo possível incómodo causado.
Filipa Correia de Sousa
[1] Parte final da letra da composição sonora “From The Air” de Laurie Anderson, presente no álbum Big Science, produzido por Warner Music, 1982.
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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