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Pedro Barateiro —Folklore

O último discurso de Marcello Caetano na Assembleia Nacional aconteceu no dia 8 de Março de 1974. As primeiras palavras do Presidente do Conselho do Estado Novo foram as seguintes: “Nenhuma dúvida pode haver de que o mais grave problema que presentemente se põe à nação portuguesa, é o Ultramar. Normalmente, nunca o Ultramar constituiria um problema para Portugal. Portugal, desde há cinco séculos, é uma nação dispersa pelos vários continentes. Está na África, na Ásia, na Oceânia como na Europa, e encontrará sempre, no génio natural do seu povo, e na experiência tradicional dos seus contactos, as soluções adequadas ao desenvolvimento harmónico de todas as suas parcelas, à convivência fraterna de todos os seus filhos, à fusão enriquecedora de todas as suas culturas. Mas na hora actual, essa evolução de uma sociedade pluricontinental e multiracial, é perturbada por crescente pressão internacional adversa.”

A exposição Folklore reúne um conjunto de desenhos a guache e grafite sobre papel—os maiores que alguma vez fiz—durante os dois últimos anos, nos Ateliers do Coruchéus, aqui no Bairro de Alvalade. A série de obras foi-se definindo por uma abordagem à paisagem que está presente desde sempre no meu trabalho. O formato horizontal ao qual agora volto, não era trabalhado há bastante tempo, uma decisão consciente, pelo carácter histórico e evocativo que têm. As composições foram feitas sem plano definido. O papel continua a ser um dos suportes mais constantes no meu trabalho pela possibilidade de uma acção directa e performativa—e por vezes violenta—do acto de desenhar.

Um texto introdutório como este é a oportunidade de demonstrar a capacidade de articular o meu trabalho num campo poético que permita ao espectador entrar de forma transversal e cómoda na obra. Mas tal não é relevante no presente. O lugar onde nos encontramos revela sempre as suas camadas. Continuamos no bairro de Alvalade. De um lado a igreja, do outro a Biblioteca Nacional, guardiões da tradição, da escrita, onde os livros mudos relatam a história de um país que se entorpece e emaranha.

Marcello Caetano vivia no bairro de Alvalade quando foi para o exílio no Brasil. As suas declarações são as de alguém que sempre viveu num regime autoritário e totalitário, que ele próprio ajudou a criar, alguém que perdeu a noção da realidade pela sua devoção cega e abstracta às leis que ele próprio tinha definido. O seu discurso reflecte a apatia de uma classe política diminuída, governada por interesses particulares, descendente de uma república atrofiada que nunca se tinha concretizado. Ouvir estas declarações nos nossos dias agudiza, e torna claro, um sentimento de incapacidade dos governantes que continuam a discorrer sobre narrativas identitárias, onde não falta o tom épico, mas falha a substância.

O actual estado da política e dos seus discursos, revelam a mesma falta de noção do passado, uma altivez em relação ao estado da sociedade em geral, e tornam o gesto artístico um acto necessário de questionamento do mundo e das narrativas que se vão construindo. Saber articular um discurso não deve ser motivo para convencer os outros das nossas crenças. Por vezes, o nosso reflexo, o ego, não nos permite ver de fora, de nos confrontarmos com o ridículo da vida, ou o quão perene tudo é. O exercício é não abandonarmos o pensamento crítico, e não nos perdemos—pelas ruas e pelos jardins que outros ajudam a construir—a capacidade de empatia e de cuidar dos outros, sem achar que sabemos o que é pior ou melhor para eles.

PB, Agosto 2025

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“O velho mundo está a morrer e o novo mundo luta para nascer: agora é hora de monstros.”

Slavoj Žižek (2010) reformulando Antonio Gramsci



Querido Pedro,

A imagem — seja ela desenhada, filmada, encenada ou representada — sempre foi o teu principal campo de ação. No entanto, as tuas imagens nunca existem isoladamente. À medida que se fundem em fluxos de informação, absorvendo e consumindo referências, formatos e linguagens da cultura popular, da propaganda e dos meios de comunicação, elas lançam uma sombra implacável sobre a maquinaria visual da política capitalista.

Esses fluxos mantêm as tuas imagens instáveis. Tal como os Snapchats que desaparecem, elas são indescritíveis, oferecendo apenas a promessa da próxima imagem. Juntas, elas formam uma cadeia de desejo — por mais circulação, mais loops, sejam repetições do mesmo, expandindo-se em círculos cada vez maiores e constelações em mudança, mas sempre presas na repetição.

Em trabalhos anteriores, exploraste isso em montagens de vídeo ou em instalações espaciais que incorporavam e alinhavam imagens lado a lado. Muitas vezes, excertos ou refilmagens dessas imagens surgiam em diferentes trabalhos e exposições, perturbando o significado da obra como um todo. Assim, em vez de buscar a imutabilidade da representação, as tuas imagens são operárias na ‘spirit-shop’: a fábrica cinematográfica que faz girar os desejos capitalistas do mundo. As tuas imagens estão vivas. São agentes secretos com um plano. Pode dizer-se que são monstros.

Mas o que fazer quando as imagens se tornam tão monstruosas que escapar do que elas representam se torna simplesmente insuportável? Quando se torna demasiado cínico reproduzir e recircular essas ‘imagens-monstros’, muito semelhantes às imagens implacáveis de fome e genocídio que nos inundam hoje, mas que parecem apenas reafirmar a paralisia colectiva do status quo? Com isso em mente, não posso deixar de me perguntar: não deveríamos trazer os monstros de volta ao que eles realmente nos querem dizer?

Olhando para os teus desenhos mais recentes, noto que, em vez de me convidarem a percorrer ou mover-me pelo espaço, eles atraem-me para dentro. A mesma densidade de referências e informações está presente, mas agora reside dentro da própria imagem. Os desenhos são executados em formato paisagem, o que é incomum para ti: sempre preferis-te a verticalidade e o imediatismo dos cartazes publicitários, capas de livros ou ecrãs de telemóveis. No entanto, aqui, recorres à extensão mais contemplativa da paisagem. Não consigo esconder o meu espanto e deleite ao perceber que criaste uma série de desenhos de paisagens.

Ao mergulhar na densidade destas imagens, nas suas tramas, encontro rostos e referências familiares, com o teu característico artifício: a montanha como um gráfico de ações, a casca da árvore como uma orelha perdida, a praia deserta e referências ao Parlamento Europeu. Figuras humanóides, pseudoanimais e, claro, monstros ocupam o centro do palco, acompanhados por provérbios que já te ouvi dizer antes, reproduzidos para a ocasião em faixas arcaicas. Parece que colocaste toda a tua obra nessas paisagens, deixando-a colidir consigo mesma e adaptando-a aos códigos da pintura de paisagem tradicional: mais um ciclo, passando da cultura popular para a mitologia fabricada da política capitalista. Folclore, como chamaste.

No entanto, conheço-te bem o suficiente para não me deixar enganar pelas tuas cortinas de fumo, querido Pedro. Já te chamei de protagonista pouco confiável antes. Entendo que a instabilidade que imitas tão habilmente é, na verdade, uma imitação em si. No entanto, a partir dos alicerces instáveis que constróis, persiste um desejo profundo e genuíno — o desejo de compreender como permanecer verdadeiramente presente no meio da instabilidade do mundo actual.

Olho novamente para estes desenhos e começo a notar coisas novas. Detalhes inacabados, decisões aleatórias e composições improvisadas revelam uma lentidão e uma sensação de incompletude que eu não tinha encontrado antes no teu trabalho. Ao estudar estas imagens, consigo ver-te a desenhar. Consigo ver-te a observar as imagens. Consigo sentir a tua raiva e ansiedade ao ver-te a desenhar estas imagens. Consigo ver-te a lutar com os teus próprios loops.

Como encontramos significado nos declives escorregadios que conhecemos tão bem? Como encontrar palavras em tempos de monstros? Talvez começar por permitir que esses monstros respondam.

Acho que foi exactamente isso que fizeste.

Com carinho,

Els Silvrants-Barclay 

PS: Continuo a não gostar de Rosalía. Mas já ouviste o último álbum da Dua Lipa?

creditos © tspt

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