Susana Mendes Silva
Shall we play?
O que esperas de uma obra de arte?
Que te encante ou que te repulse? Que te seduza ou que choque? Que te reconforte ou inquiete? Que te leve a parar ou a agir?
A arte pode tudo isso. Pode despertar todas estas reações e muitas outras, mais emocionais ou cerebrais. Pode porque, como propõe Rancière, a arte “não é a transmissão do saber ou do respirar do artista ao espectador”, mas antes algo do qual “nenhum deles possui o sentido”. Pode porque, enquanto espectadores emancipados, nos relacionamos com a arte “por intermédio de um jogo imprevisível de associações e dissociações”, confrontando o que presenciamos com aquilo que já vimos, fizemos e sonhámos .
O que esperas e retiras de uma obra de arte dependerá, parece-me então, da tua vontade de jogar este jogo.
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O trabalho de Susana Mendes Silva toma raramente a forma de objeto. Geralmente ganha forma num lugar, físico ou virtual, através do encontro entre duas ou mais pessoas. Presencialmente, por carta, telefone ou chat; a partir de uma mensagem deixada num elevador, de um anúncio numa montra, de um programa de rádio ou de uma festa surpresa. Cada encontro segue um conjunto de pressupostos definidos pela artista, mas a sua manifestação é invariavelmente incerta, moldada pelo que cada participante trará consigo. A sua prática ganha forma precisamente no desenrolar deste jogo imprevisível onde cria espaço para o diálogo e para o silêncio, para a intimidade e para o humor, para o insólito e para o erótico, para a celebração e para a subversão.
O campo da subversão será certamente um dos seus prediletos. É nele que encontra caminhos para testar os limites da arte e da perceção, para desafiar o papel da artista e de quem se depara com a sua obra, ou para adulterar a função dos espaços e objetos que nos rodeiam — no fundo, formas distintas de subverter as regras do jogo. A sua prática parte frequentemente de gestos mínimos, delicados mas incisivos, que convocam o corpo para o espaço, recorrendo à linguagem e ao desenho como meios de expressão e interação. Gestos estes que geram subtis interferências nos lugares e conceitos que nos são familiares e aos quais atribuímos determinado valor.
É o caso de Untitled [Get Back], performance duracional concebida em 2023 com Jari Marjamäki, para a Appleton Box. Marcando o arranque do ciclo Get Back, comissariado por Carolina Trigueiros, que tem trazido de volta a este espaço artistas que nele já expuseram anteriormente, a performance surge em diálogo e contraponto com a instalação Square Disorder, concebida por Susana Mendes Silva para a Appleton Square 15 anos antes, em 2008. Dois espaços complementares — white cube e black box — veem a sua essência radicalmente subvertida, apesar de ambos se manterem praticamente inalterados e virtualmente vazios.
Em Square Disorder, a artista reequaciona o rígido e imaculado cubo branco justapondo-lhe uma delicada malha orgânica, quase impercetível ao olhar mas reativa ao movimento do corpo, praticamente imaterial mas profundamente tátil. Em Untitled [Get Back] o espaço obscurecido é ocupado por um ruído indistinto que nos absorve, envolve e intriga, culminado num momento inesperado de ofuscação e confrontação. No primeiro caso, o espaço luminoso aparenta estar totalmente vazio, e é apenas ao entrar, afinar o olhar e circular que é possível descobrir o gesto mínimo da artista. No segundo, o espaço apresenta-se opaco e imperscrutável, para a seu tempo se revelar vazio e nos expor repentinamente, ao som de uma retumbante provocação. No jogo imprevisível desencadeado por cada obra, as reações tendem a divergir diametralmente, da atração à repulsa, do sobressalto à frustração.
Mais incisivo que delicado, Untitled [Get Back] não proporciona apenas um encontro, mas sobretudo um confronto. “If you are disappointed it’s your fault!”, sentencia a artista.
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O que esperavas então desta obra de arte?
Que expectativas aqui depositaste? Em relação a quê, precisamente: à obra em particular ou à arte em geral? Face ao que vês ou a quem vês e contigo se defronta?
Ou talvez possas antes perguntar: o que exige ela de ti?
A performance é tua, nossa. As expectativas que até ela trazemos; as questões e ilações que dela levamos também.
Shall we play?
Joana Valsassina 2025
Bio
Susana Mendes Silva (Lisboa, 1972) é artista plástica, performer e professora auxiliar na Universidade de Évora.
A prática de Susana Mendes Silva desenvolve-se em torno do desenho, da performance, do trabalho de arquivo e, sobretudo, do encontro — com o público, com o espaço, com a história e com os seus pares. A sua obra parte de subtis transformações do que nos rodeia, gestos mínimos de subversão de regras e códigos. A artista relaciona intimidade e violência, corpo e linguagem, sexualidade e libertação.
Susana estudou Escultura na FBAUL e frequentou o programa de doutoramento em Artes Visuais (Studio Based Research) no Goldsmiths College, Londres, tendo sido bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. É Doutorada em Arte Contemporânea, pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, com a tese baseada na sua prática performativa – “A performance enquanto encontro íntimo”. É, também, investigadora integrada CEIS20 – Centro de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Coimbra e membro da Direcção da AAVP — Associação de Artistas Visuais em Portugal.
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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