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Tatiana Macedo — Esgotaram-se os Nomes para as Tempestades #2

Tatiana Macedo (Lisboa, 1981) tem vindo a desenvolver um trabalho que, na utilização do filme, da fotografia e do som, reconfigura lugares, reflete sobre as condições culturais e afetivas dos seus protagonistas e pensa em imagens o espaço e a arquitetura.

O projeto que a artista apresenta na Appelton Square é uma transformação da peça que concebeu para a Culturgest Porto intitulada Esgotaram-se os Nomes para as Tempestades. Trata-se de um filme em 4 canais, visão vagamente distópica de um futuro próximo, concebido a partir de um diálogo dúbio entre um personagem – interpretado pelo ator Nuno Lopes — e ele-mesmoenquanto-outro, um Doppelgänger que, em contratempo, alterna listas de nomes (de tempestades) com comentários que os personalizam, partindo da circunstância de serem nomes de pessoas, homens ou mulheres. Filmado na Confeitaria Cunha, no Porto, utiliza a notável arquitetura do espaço (da autoria de Vítor Palla e Bento d’Almeida) como lugar de memorias de um tempo votado a uma ideia auspiciosa de futuro entretanto gorada, expressa no melancólico diálogo que o personagem mantém consigo mesmo. Esta linha narrativa, que possui um drama inerente presente no fluxo de memorias convocadas, surge pontuada por pormenores do espaço — das cadeiras, do balcão, do chão –, do seu desgaste, das marcas do tempo. Esta é a matéria que Tatiana Macedo torna tangível, e que convoca o tato. Esse caráter háptico das imagens – e a sua inerente sensualidade –, é meticulosamente construído, quer através dos gestos das mãos, repetidamente presentes por diversas formas (também nos procedimentos de limpeza e preparação do espaço do restaurante), quer pelo trabalho rigoroso da cor.

A densidade atmosférica do filme, o seu tom e ambiente, é em parte definida por um cromatismo que remete para um universo cinematográfico romanesco (ou romanticamente distópico), no qual

as remissões para Wong Kar-Wai de Chungking Express (1994), Léos Carax de Má Raça (Mauvais Sang, 1986), Wim Wenders de As Asas do Desejo (Das Himmel Uber Berlin, 1988) ou Ridley Scott de Blade Runner (1982) são percetíveis em episódios específicos – como acontece nas explicitas alusões ao filme de Carax –, mas sobretudo num ambiente difuso mas cromaticamente saturado, que alude a uma certa cinematografia dos anos de 1980.

É precisamente essa visão retrospetiva, ou reveladora de uma prospeção falhada, de uma antevisão

de futuro que se espalha em direção ao passado recente e ao futuro próximo (uma narrativa localizada no futuro, com uma imagética oriunda do passado próximo) que é materializada na

saturação cromática, imersiva e física, mas também nos segmentos de banda sonora que remetem para a sonoridade eletrónica e ambiental de Robert Fripp. Na apresentação da obra na Culturgest Porto, os quatro écrans encontravam-se face-a-face em dois pares, rodeando o espectador, o que, necessariamente impedia uma visão do conjunto do filme. Na versão agora apresentada, no entanto, a opção de instalação da obra em dois dípticos que se juntam num canto vem possibilitar uma visão de conjunto, potenciando as repetições, o caráter dual da recorrência do personagem interpretado por Nuno Lopes, a presença dos detalhes do espaço e a sequência narrativa.

As modulações narrativas ficam agora mais visíveis e a fantasmática convocação das memórias

fragmentares torna claro que a sua matéria é a ausência, o esgotamento, o cansaço e o

desaparecimento. Que essa evocação surja a partir de nomes de tempestades não é indiferente: densifica o caráter familiar e erodido do ambiente pela convocação das alterações climáticas, mas pela pessoalização. Os nomes desenham o campo pessoal da falta, da falha e, nesse sentido, da melancolia.

Nesta obra mais ainda do que noutras, o cinema expandido de Tatiana Macedo parte dessa melancolia da lista e do index, do pequeno gesto e do ritmo do discurso para envolver o espectador numa luz que o ensopa.

Delfim Sardo

créditos © Bruno Lopes

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