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Vasco Araújo — Eros e Thanatos

Eros e Thanatos, exposição individual de Vasco Araújo, consiste numa nova instalação escultórica, onde procura refletir-se sobre a condição humana contemporânea através da necessária revisitação do passado e da história da arte, usando, para isso, inquietantes figuras da mitologia greco-romana.

A instalação é formada por 24 esculturas em barro vermelho (terracota) assentes em 18 tripés de escultura de metal. Estas esculturas são inspiradas nas terracotas do escultor italiano do séc. XVII, Gian Lorenzo Bernini, e têm aproximadamente a dimensão de 40x45x45cm cada. As figuras são estudos de diversos episódios de cenas míticas da Antiguidade Clássica, nomeadamente, Apolo e Dafne; Mercúrio e Bato; Hércules, Nesso e Dejanira, entre outros. Formalmente, fixam acções, posições e movimentos vários, que se baseiam, aparentemente, no seminal catálogo de imagens das esculturas clássicas, mas de um modo que procura a ambivalência de sentido, dúvida, num olhar contemporâneo naquilo que se apresenta, entre a ideia de vida ou morte, amor ou violência, ou ainda, sexo ou abuso.

A ideia desta obra parte da conceptualização sobre Eros e Thanatos, desenvolvida por Freud que lhe serviu para exemplificar as teorias das pulsões e que explica a formação psíquica de todos os Seres Humanos de todos os géneros. Eros e Thanatos corresponde à coexistência simultânea do desejo erótico e da atracção pela morte. Ou seja, a pulsão de vida equivale a toda a demanda interna que nos leva a buscar o prazer, a criar e a realizar projectos enquanto a pulsão de morte obedece à demanda que nos conduz à busca pelo isolamento, pela estagnação e pelos atos de destruição e morte. 

A estrutura estética e formal desta instalação constitui-se na ambivalência das acções das figuras, na violência das imagens apresentadas, nas emoções psicológicas convocadas e na exaltação dos corpos em confronto, para assim questionar a relevância das imagens e das histórias do passado  sobre o modo como vivemos, vemos e sentimos o tempo presente. Eros e Thanatos convoca, ainda, a ideia de poder, de fragilidade, de desequilíbrio ou de instabilidade, presente no confronto entre corpos, nas lutas de género, mas servirá sobretudo para fazer-nos refletir sobre este conjunto de temas que nos formam e que perduram até aos dias de hoje.

Eros e Thanatos tem como premissa o pensamento crítico sobre os códigos comportamentais humanos que reflectem a relação psicológica, política e social do sujeito na sua diversidade de género, etnia ou classe social. O desempenho dos corpos, das acções, a gestualidade, as formas sociais estabelecidas, são repensados através de um dispositivo instalativo formal e conceptual associado à mitologia greco-romana e à tradição escultórica do séc. XVII, definindo um espaço próprio, estético e discursivo. Amplamente alicerçado na Literatura, na Filosofia, bem como nos Estudos Clássicos (Ovídio; Platão; Gian Lorenzo Bernini; Sigmund Freud; Cesare Pavese; José Pedro Serra, Frederico Lourenço), o artista pretende expor, criticamente: o olhar sobre Outro; a ambiguidade potencial das relações inter-pessoais; a fragilidade dos sistemas tomados por garantidos; a construção do real; as relações entre identidade e poder; sexualidade e género; a virtude e a moral do dever; a geografia dos afectos e as pulsões do desejo e da paixão versus a morte.

Por ocasião desta exposição será editado um livro de trabalho/publicação, com imagens paralelas, esboços, desenho e textos de Vasco Araújo, Cesare Pavese, Konstantinos Kavafis e Luís Miguel Nava, que será distribuído gratuitamente durante o tempo da exposição.

creditos © pedro tropa

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