Belén Uriel

A instalação de Belén Uriel, exposta agora no MACE, em Elvas, no contexto da exposição “Diante do Tempo”, organizada pela Appleton, apresenta-se inusitada e  propositadamente transiente. Aqui, o tempo não é apenas um pano de fundo, mas uma força activa de qualidade plástica, que opera sobre os materiais e informa a percepção dos mesmos. Há um eco que trespassa esta exposição, que é também um intencional estado de transposição, uma colagem temporal, ou a cadência de uma sincronia a dois compassos.

A peça “Ni blanco, ni negro” foi inicialmente apresentada na Appleton há mais de uma década, numa exposição homónima que desafiava o estatuto do pedestal e a monumentalidade da escultura. Era início de 2011 e a primeira apresentação da artista em Lisboa. Fragmentada, dispersa, aberta à activação do corpo visitante, a obra existia num domínio contingente, insinuando-se entre a decomposição e a possibilidade latente de metamorfose. Como escrevi recentemente sobre essa exposição finda*, “o foco no pedestal, enquanto símbolo de monumentalidade já prefigurava uma preocupação com a escultura enquanto sistema relacional. A fragmentação das esculturas de chão sugeria tanto o desmantelamento de narrativas hegemónicas quanto a possibilidade de recomposição de outros sentidos.”

O tempo avançou, e a obra “Ni blanco, ni negro” sofreu a sua inexorável passagem, na lenta fricção com o exterior, um jardim particular, onde foi colocada desde então. Acumulou patine, marcas de humidade, vestígios orgânicos e manchas porosas, onde a natureza rompeu pela rigidez do betão armado. O gesto de a reintroduzir num novo contexto enfatiza a sua potência escultórica enunciada, com assumidas preocupações conceptuais que prolongam um léxico que a artista tem vindo a desenvolver; entre a resistência e a inevitabilidade do fluxo da impermanência, à continuidade de uma pesquisa sobre a mutação dos materiais.

“Ni blanco, ni negro” (para “Diante do Tempo”, 2011/2025) surge assim neste hiato, num jogo de correspondências com peças e objectos recentes (de 2024/2025), evidenciando um movimento de justaposição. Estes objectos, trabalhados a partir de moldes, emergem como carapaças, fragmentos de um organismo híbrido, que ressoa tanto estruturas protectoras (um capacete, um suporte, um invólucro) como elementos orgânicos (raízes, troncos, folhas), destacando-se a introdução do vidro soprado na sua forma una, intacta. Nesta sala expositiva, a ocultação e a revelação são ritmos de uma mesma coreografia: há uma oscilação entre o que se evidencia e o que se resguarda, entre a transparência e a opacidade, entre os materiais e a arquitectura do espaço. O carácter sólido do betão confunde-se com a mutabilidade dos objectos.

Se em “Ni blanco, ni negro” de 2011 existia, na sua solenidade desconstruída e silenciosa, a possibilidade latente de uma possível activação, agora recusa-se essa função inicial. Ao invés, os blocos tornam-se um campo de relações entre materiais, tempos e gestos. O betão, ao receber objectos de vidro numa disposição serpenteante lembra a maleabilidade do molde destes, que agregou texturas, traços vegetais e minerais, cicatrizes à semelhança de uma pele. A artista intervém sobre o seu próprio trabalho, alterando-o e devolvendo-o a uma condição de contínua ambiguidade. O exterior contamina esta exposição, no que ficou impresso sobre as peças ou na própria memória dos materiais. Entre a permanência e a erosão, a memória e a transformação, é na fronteira que o olhar embate nos minuciosos detalhes e nas suas relações sugestivas, passíveis de ser continuadas por via de uma dialéctica colectiva.

A propósito de “Otoño”*, recente exposição individual de Belén Uriel na Appleton, onde semelhantes objectos se apresentavam incorporados nas obras Shell, mencionava-se “fitas de mochila confundem-se com filamentos; despojos de cadeiras industriais monobloco com a fisionomia de um esqueleto; entendemos peças onde manifestamente se revelam os seus suportes; o ponto de contacto que indicia a sua idiossincrasia protética. São membros de um corpo embutidos de memória fragmentada, afectiva ou industrial, indissociáveis de um quotidiano tantas vezes omnipresente, os signos da globalização desenfreada, esvaziada de contexto. É no domínio do antropomórfico que identificamos um torso ou uma orelha; um capacete onde ressoa a memória do seu desígnio utilitário desfeito ora por via de uma apropriação rigorosa, ora pela transformação na mão da artista que recorre à fundição, em vidro ou alumínio.”

Belén Uriel amplia nesta exposição um sistema familiar e um articulado estado de limbo, onde fragmento e totalidade coexistem. Firmeza e vulnerabilidade, superfícies frias e formas íntimas são dicotomias enraizadas no vocabulário da artista e de uma constatação poética das propriedades dos elementos que explora como eventualidades adjacentes, ou rupturas desejadas. Como em 2011, também agora em 2025, a prática de Uriel mantém-se vinculada à potencialidade de intervalos, momentos de suspensão que convocam o carácter transitório e mutável de cada obra.

Num mundo de animismo escultórico, as perspectivas de corpo e materialidade são constantemente redefinidas. Aqui, a natureza, o jardim, entra pelos poros de peças viventes, pelos interstícios do betão, faz-se adentro, rompe onde há um possível rasto de haver, e sempre num rasgo de surpresa e encanto. O principal ingrediente à receita é mesmo, tempo. O segundo, é o olhar – atento, manifestamente, de quem sabe auscultar estes intervalos.

Carolina Trigueiros, Abril, 2025

Appleton, ciclo “Get Back”, Belén Uriel “Otoño”, Dezembro, 2024

Bio

Belén Uriel nasceu em Madrid, em 1974. Vive e trabalha em Lisboa.

A sua prática centra-se nos objetos domésticos e na forma como a maneira como nos relacionamos com eles pode condicionar os nossos hábitos sociais. A artista concentra-se nas qualidades esculturais de materiais como o vidro e o metal na criação de formas orgânicas originadas pelo design de objetos que acomodam, sustentam ou têm uma relação com o corpo humano. Estes elementos, reorganizados, parecem transformar-se em partes anatómicas, reconstruindo parcialmente e regressando aos corpos que indiretamente inspiraram a sua forma.

As suas exposições individuais e em dupla mais recentes incluem: Otoño, Appleton Square, Lisboa 2024-25; Outono, Ateliê Fidalga, São Paulo, 2024; Panóplias, Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, Évora 2023; Jamais o Acaso, UPPERCUT, Lisbon (2022); Rayo Verde, THE RYDER, Madrid (2021); Bonança, CA2M, Madrid (2019); Tandem: Gabriel Abrantes and Belén Uriel, Alexander and Bonin, New York (2019); Estudos do Labirinto, com Ana Santos, Museo da Marinha, Lisbon (2018); segunda-feira, Culturgest, Lisbon (2016); Sand, Paper, Scissors, Projektraum Museum, Wiesbaden (2016); Pedra, Papel e Tesoura, Pavilhão Branco, Lisbon (2013); Ni Blanco, Ni Negro, Appleton Square, Lisbon (2011).

Exposições coletivas selecionadas incluem: 331 Amoreiras em Metamorfose, Museu Arpad Szenes Vieira da Silva, Lisboa, 2024-25; Murmur, Karpuchina Gallery, Praga, 2024; Amor I Love You, Galeria P28 – Pavilhão 31, Lisboa, 2024; Between 58 and 131 infinitely, Galerie Martin Janda, Vienna 2023; Oh So Quiet…Material Meditations on Abstraction, WHATIFTHEWORLD Gallery, Cape Town 2023; Les Péninsules démarrées, Frac Nouvelle-Aquitaine MÉCA, Bordeaux (2022); Spirit of Kindergarten, Hedge House, Kasteel Wijlre, The Netherlands (2021); Anozero’19, The third Bank, Coimbra Biennial, Coimbra (2019-20); No habrá nunca una puerta. Estás adentro. Teixeira de Freitas Collection. Sala de Arte Santander, Santander Foundation, Madrid (2019); Vacío Perfecto, MUSAC, León (2017); Laboratorio 987.

Foi galardoada com o 6º Prémio Audemars Piguet, ARCO Madrid (2018); Programa de Apoio às Artes Visuais Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa (2021-2015); Motehermoso Arte e Investigação, Centro de Arte Contemporânea Montehermoso, Vitoria (2011); 6ª Edição das Bolsas de Criação Artística MUSAC, León (2010-11); Bolsas de Criação de Arte Contemporânea Matadero, Centro de Arte Matadero, Madrid, (2010).

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /